segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Igualmente implacáveis


Implacável. Essa é a palavra que melhor organiza na minha mente as mulheres que tomaram o poder pelas mãos e trilharam caminhos historicamente masculinos. E ser implacável não tem nada a ver com ser rígida e pouco feminina, pelo contrário, é desenhar um molde desconhecido, uma concepção pouco convencional do que seria um homem ou uma mulher. Ser implacável é ser livre, para agir de acordo com a própria consciência.

Assim são muitas mulheres. Onde estão elas? Perambulando mundo afora, liderando famílias, comunidades, empresas, nações. O que as difere das outras mulheres e homens é que não titubeiam em crer, tentar, brigar, correr, cortar gastos, não negociar, fazer o que acreditam ser o certo.

E num mundo onde todas as opiniões mudam como a previsão do tempo e valores parecem falhos, já que a relativização extrema nos faz navegar em terras lamacentas, crer em algo e guiar-se por essa crença é algo corajoso e por vezes, ingênuo. E o que seria da humanidade sem essa ingenuidade? Talvez já tivéssemos sucumbido à vileza e traição. Ou será que é nossa natureza é mesmo corrupta e imunda?

Mas o foco de nossa conversa é outro. O que há de inegável nas mulheres implacáveis é que não são nem masculinas nem femininas, não como define historicamente o mundo ocidental; elas escolhem ser o que suas cabeças acham correto. E hoje faremos uma singela homenagem às mulheres que decidiram não quebrar-se e mostraram ao mundo que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive no poder. Apresentamos a vocês Margaret Thatcher e Rosa Luxemburgo!

Rosa Luxemburgo: Judia, polonesa, militante, dirigente política, grande pensadora e, sim, mulher. Viveu sempre fiel aos ardentes ideais revolucionários que construiu em sua militância política clandestina na Polônia. Exilou-se em Berlim e foi fundadora do Partido Comunista da Alemanha, não hesitando em combater o revisionismo socialdemocrata - pregando o socialismo operário e de luta - mesmo que isso a colocasse em risco de vida, culminando posteriormente, em seu brutal assassinato.

Militantes, mirem-se em seu exemplo: a coragem e ousadia com que enfrentou preconceitos de sua época, onde às mulheres eram reservados assuntos “femininos”, é até hoje surpreendente. Seu objetivo era fazer política partidária em pé de igualdade com os maiores teóricos do partido, e assim o cumpriu, brilhantemente.

Lutou com todas as suas forças para não sacrificar sua felicidade individual à política, tinha um alto objetivo a seguir – tornar-se um ser humano completo. Interessava-se por literatura, pintura, música, botânica, homens (por que não?) e pela natureza. Dividia-se entre a dureza de sua carreira política, a posição firme que tinha de manter e seu anseio por uma vida simples e campestre. Dizia que esperava morrer em seu posto, numa batalha de rua os nos trabalhos forçados, mas, que seu mais profundo “eu” pertencia ao campo, cercada de passarinhos e não de camaradas no congresso.

Implacável, mulher de pulso firme, decidida e apaixonada, Rosa Luxemburgo amou e foi amada - e tudo isso, revolucionariamente. Seus amores eram também companheiros de luta. Nutria um desejo imenso de ter um filho, um homem amoroso e uma família, e ao mesmo tempo, de ser líder do movimento socialista internacional. Mulheres militantes normalmente sacrificam sua vida pessoal à causa. Mas não Luxemburgo. Ela acreditava que podia (e devia) ter as duas coisas.

Thatcher, que ficou conhecida como “dama de ferro” devido à sua postura firme e conservadora durante a Guerra Fria; foi a primeira e única mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra britânica até hoje. Sua carreira política começou ainda jovem, filha de um comerciante conservador, estudou química em Oxford e depois tornou-se barrister (categoria de advogado da tradição da Common Law, o direito seguido no Reino Unido). Entrou no partido conservador em 1953, do qual o marido já fazia parte e em 1959 conseguiu um lugar na Câmara dos Comuns. Posteriormente Margaret passou pela Secretaria de Estado para Assuntos Sociais e de 1970 a 1974 foi Ministra da Educação, para em 1979 ser eleita presidente do Partido Conservador e assim, Primeira-Ministra.

O filme “A dama de Ferro”, de 2012 e que conta com a direção de Phyllida Lloyd, traz Meryl Streep como Margaret e apresenta a mulher que não titubeou em fazer o que devia ser feito, a mulher que não se amedrontou perante os gritos das multidões de “STRIKE,STRIKE,STRIKE” e ao mesmo tempo, a mulher que na velhice se vê frente a frente com o passado. Flashbacks de momentos gloriosos e difíceis, retratos da rotina comum que ela passa a levar quando se ausenta da política. É o cinema eternizando uma lenda, que amada ou odiada, não pode deixar de ser reconhecida como lenda.

Além de certa afinidade ideológica, minha admiração por Margaret Thatcher se deve à sua coragem. Ela arriscou adentrar o universo historicamente masculino da política e defendeu o que acreditava como poucos tiveram a decência de fazer. Assumir o que se acredita é algo raro e difícil, caros leitores, ainda mais quando acarretam retaliações (como por exemplo o  atentado que ela sofreu em 1984). A dama de ferro mostrou ao mundo que reerguer um país custa caro, mas não hesitou em oferecer a si mesma como pagamento.

Duas mulheres, iguais em dignidade, ainda que em caminhos opostos. De um lado a rosa vermelha do socialismo e de outro a dama que vestia o conservador azul. Rosa e Margaret não foram "homens no corpo de mulher", foram mulheres que ousaram ser o que queriam e por isso, são nosso motivo de celebração hoje.

* Esse texto foi produzido em conjunto por duas chatas, Ananda Marques e Andressa Inácio. Ficando a cargo da primeira falar sobre Margaret Thatcher e da segunda, falar sobre Rosa Luxemburgo.


Um comentário:

  1. Nada a ver essa comparação entre Margareth Thatcher e Rosa Luxemburgo. Rosa lutou por um mundo sem desigualdades; já Thatcher tudo fez para assegurar os privilégios da elite, exercendo uma política extremamente conservadora. Não há feminismo possível sem a luta por uma mudança social, que inclua a supressão das desigualdades de classe; logo, não faz sentido celebrar uma reacionária de marca maior como Thatcher, só por ela ser mulher. Aliás, Thatcher não deve servir de exemplo para ninguém, nem para homens, muito menos para mulheres.

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