quarta-feira, 4 de abril de 2012

Quanto vale uma asiática?

    Em uma dada população, quando homens e mulheres são tratados em pé de igualdade e as mulheres não têm uma propensão migratória mais forte que a dos homens, elas são normalmente majoritárias. Essa tendência deveria valer também para países mais populosos, como Índia e China, mas não é o que se tem observado nas últimas décadas. Aborto seletivo de meninas, tratamento desigual entre os sexos, estatuto social secundário e más condições sanitárias, gerando uma supermortalidade feminina na infância e na idade adulta, representam um conjunto de particularidades que concorrem para o déficit de mulheres. 
     Na China, na Índia, na Coréia do Sul e em Taiwan, meninos e meninas nasciam em proporções normais no início dos anos 1980. Mas de lá para cá, com o controle de natalidade, a preferência tradicional pelos meninos se exacerbou e acabou por superar as leis biológicas, rompendo-se então o equilíbrio natural. Essas práticas decorrem diretamente do estatuto inferior das mulheres nessas sociedades: sistema patriarcal, famílias patrilineares, socialização que encoraja a submissão ao marido e à família dos sogros, casamentos arranjados. É, portanto, necessário ter um menino para manter a família, perpetuar seu nome e assegurar sua reprodução social e biológica. 
     Então, o que fazer quando só se quer ou só se pode, como na China, ter um número muito limitado de filhos, e se deseja a qualquer preço ter um menino? A escolha é uma só: impedir, na medida do possível, o nascimento de uma menina ou, quando ela nasce, fazer de tudo para que ela não atrapalhe seus pais na possibilidade de ter um menino. Com apenas alguns meses de gravidez, a futura mãe passa por uma ultra-sonografia e freqüentemente toma-se a decisão de livrar-se da menina não desejada, através de aborto. Negligenciar suas meninas, colocá-las em segundo plano em relação aos meninos no que diz respeito a alimentação, cuidados, vacinação, são práticas comuns e freqüentemente fatais, que levam a fortes desigualdades de mortalidade entre os sexos, especialmente na infância. . 
    O sistema de atribuição das terras cultiváveis implementado na China desde a descoletivização agrária dos anos 1980, somado a um sistema de herança regido por regras patrilineares, leva muitos camponeses a preferirem um filho. Na Índia, a recente inflação do montante do dote, que se torna uma ameaça cada vez mais pesada sobre o equilíbrio econômico das famílias, constitui uma das principais razões que levam a eliminar uma menina. Desse modo, nos meios mais abastados, ter uma menina é freqüentemente visto como um sinal de azar. 
    Mais que uma questão de gênero, o déficit de mulheres, especialmente na sociedade chinesa, tem afetado os homens. Em um prazo maior, o celibato masculino será inevitável, e os homens serão obrigados a renunciar a uma descendência, o que causará a ruptura de sua linhagem familiar, cuja perpetuação é, atualmente, um dos principais fatores da preferência pelos meninos. Para responder a essa demanda crescente de esposas, organizam-se redes transnacionais. Para algumas famílias chinesas pobres, comprar uma esposa seria o único meio de encontrar, com custos menores, uma mulher para seu filho. Além disso, essa demanda responde às estratégias econômicas elaboradas pelas migrantes vietnamitas, que depositam no casamento com um chinês a esperança de uma vida melhor. 
    Na China, o tráfico de esposas se desenvolve. Os compradores são em geral camponeses pobres e pouco educados, para os quais apelar para os traficantes ainda é mais fácil e menos oneroso que um procedimento regular. Em algumas aldeias, os serviços de registro de casamentos estão autorizados a simplificar os procedimentos, o que permite aos compradores obter, mediante pagamento, um certificado atestando seu casamento com a esposa comprada e uma inscrição dentro de todos os conformes nos registros de estado civil. Desse modo, estaria mais complicada a situação de uma jovem chinesa que, encontrada pela polícia após ter sido raptada e vendida, exigisse ser libertada e retornar para sua família. 
    As autoridades dos países envolvidos, conscientes da gravidade da situação, buscam respostas políticas. No entanto, leis não bastam. Nessas sociedades, os valores patriarcais são tão profundamente arraigados que seriam necessárias muitas gerações até que a melhora do estatuto social da mulher ajudasse os casais a se tornarem indiferentes ao sexo de seus filhos. Fica, no entanto, a esperança de que os jovens casais tornem-se menos inclinados a preconizar os valores patriarcais e a reproduzir os comportamentos sexistas tradicionais, e a proporção de meninos e meninas nascidos volte progressivamente.


*Trechos retirados da reportagem A Ásia teme as mulheres, de Isabelle Attané

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