domingo, 14 de outubro de 2012

Por que?

Há mais de um ano atrás escrevi um texto em meu blog pessoal que demonstrava todas as minhas dúvidas e crenças, equívocos e disparates sobre o feminismo. Eu não sabia o que era, por isso não me declarava como tal. Mas creiam, caros leitores, não titubeio: em meu corpo habita uma alma feminista

"Ah, mas discutir polêmicas como aborto, cotas, racismo e política em geral é perda de tempo. Cada qual com sua opinião vai defender apenas o que acredita, vira uma guerra de inteligências". Eu já disse isso, e não me envergonho de assumir que estava errada, "volver siempre, olvidar jamais". E hoje, ao invés de criticar alguém ou algo, resolvi resgatar minhas antigas opiniões, comparar e quem sabe, levar você que lê a tentar mudar de ideia também.
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Gênero é algo construído socialmente, digo isso porque estudando diversas sociedades e seus sistemas de organização vemos que há modos e modos de ser homem e mulher (ou qualquer outro gênero). Não é da "natureza humana" que a mulher seja "Como se fosse uma frutinha doce/ Que a gente guarda pro jantar./ Como se fosse uma viola nova, /Que a gente gosta de tocar", como bem cantou Nara Leão, sobre a figura da donzela. Sinto muito aos que acham que as meninas já nascem gostando de rosa e coisinhas fofinhas e os meninos, cheio de energia para jogar bola e comandar o mundo, não é bem assim. A questão é que somos ensinados a ser esse tipo de homem e esse tipo de mulher. 

E por mais que hoje seja bem diferente do século passado, por exemplo, quando as mulheres eram privadas de direitos básicos do ser humano, necessários à uma democracia, como direito à propriedade, à herança, ao voto, à assumir cargos públicos, etc etc etc; ainda há um longo caminho pela frente.

É nisso que o feminismo atua, nesse caminho para que independentemente de ser homem ou  mulher, a pessoa, como ser humano que é, tenha seus direitos assegurados (e deveres também, é claro). 

 "Já ouvi milhares de pessoas dizendo que é coisa de mulher “mal comida”, feia e que quer ser intelectual. Que é o equivalente do machismo, que só aprofunda a guerra entre os sexos, que não serve pra nada. Não sei exatamente o que penso, mas acho que tem seus prós e contras, não se pode jogar no lixo. Afinal, o movimento feminista teve muitas vitórias, conseguiu, ainda que não por completo, libertar em partes as mulheres, sexual e politicamente."

Cristo! Como eu estava enganada! 1. Não sei da vida sexual de todas as pessoas feministas (não somos só mulheres, juro). 2. O equivalente do machismo é o femismo, dá pra perceber pela etimologia da palavra, e nem sei se isso existe, nós nunca estivemos no topo das paradas pra querer manter a ordem opressora vigente. Dizem que há esse feminismo radical que quer extinguir todos os homens da face da Terra (muahahaha) e que viria a ser o equivalente do machismo. Bom, já é uma prova de o machismo não é legal. E uma coisa bem óbvia, os homens ou as mulheres não são todos iguais, essas denominações não conotam o caráter de ninguém. 3. Não acredito hoje que existe uma guerra dos sexos (por mais que a novela das sete tenha esse nome...) O feminismo combate a prática machista e não os homens, tão tal que só o que temos são mulheres machistas! Como principais responsáveis pelo processo de socialização das crianças, são as próprias mulheres que reproduzem o discurso patriarcal, numa coisa meio maluca. Isso sim é alienação, atentar contra si mesmo sem saber (ou sabendo). 4. Agora eu sei o que penso, o movimento feminista teve suas vitórias e no momento, há quem diga que vivemos uma terceira onda feminista, com a Marcha das Vadias, que eu tenho orgulho imenso de fazer parte.

E por o feminismo tratar geralmente de assuntos sobre a mulher, estudos de gênero são naturalmente compreendidos como estudos sobre mulheres, só que não. Oras, o feminismo nasceu lá no fim do século XIX, a tal modernidade se equilibrava na "democracia" e no "progresso". Papéis declaravam que todos os homens eram iguais, que todos eles tinham o direito essencial de possuir a própria vida. Baseadas nisso e de forma muito inteligente, nossas ancestrais protestaram pelo direito de voto, herança e propriedade. Na Inglaterra nasceu  o feminismo liberal. Com o desenvolvimento da vida urbana, a organização dos movimentos operários e Marx bradando que o proletariado se unisse, o marxismo foi ganhando força e surgiram novas análises da exploração. A burguesia --> proletário --> esposa do proletário. Seria então a mulher, através do trabalho doméstico, o cocô do cavalo do bandido, que possibilita a mais-valia do possuidor dos meios de produção (o patrão) sobre o que vende sua força de trabalho (o operário). Pois é, o feminismo marxista "descobriu" que realmente, a origem da desigualdade dos homens está na divisão do trabalho que a família institui (necessário, segundo Marx, para a produção e reprodução da sociedade), sendo a mulher a explorada pelo explorado.

Na minha humilde opinião, o socialismo não vai libertar a mulher desta bendita exploração, nem o capitalismo; mas este último possibilita o que fazemos, reclamar, protestar e tentar reverter a ordem. Conseguimos ter o mesmo direito à educação, o mesmo dever de votar. Podemos seguir as mais diversas carreiras (ainda que enfrentando vários obstáculos) e já ocupamos cargos de poder na política e na economia, por exemplo. Fizemos muita coisa.

Em meu primeiro post no Chatas eu falei sobre o disparate de as mulheres serem mais de 50% da população mundial e serem consideradas "minoria sociológica", já que nossa representatividade não corresponde ao número real; e hoje eu falo novamente, acho errado. Na minha visão, o feminismo tenta ser o remédio disso. E se perguntam "por que, por que ser justo feminista?" Eu respondo numa prosa estranha: quero ser a cura para as meninas que não veem o futuro, para as moças que tem as asas podadas e os corpos mastigados. Eu quero ser o unguento que sara as mães dilaceradas e as crianças que não sabem, fronteiras não existem. Ah, eu quero espalhar a esperança e as possibilidades, eu quero ser o que somos, sem ninguém rasgando a pele. Então, me deixem ser nós, me abandonem feminista que sou e permanecerei feliz.




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