sábado, 23 de fevereiro de 2013

No carnaval pode, e no resto do ano, por que não?

O carnaval, tudo pode e é bonito. Nudez é arte e sexo é diversão, a alegria regada ao álcool festeja a vida. Carnaval é tempo de extrapolar, exagerar, largar a rotina e cair em pelo menos uma semana de folia. E na quarta-feira de cinzas se percebe o ar mais pesado, as ruas imundas, os bêbados vomitando ressaca. Na quinta-feira tudo volta ao “normal”, os homens vestem roupas de homem e as mulheres cobrem o que antes mostravam com prazer. Os “mais soltinhos” voltam pro armário e o amor de carnaval é esquecido. Hipocrisia, incoerência? Para a Antropologia isso tudo pode ser interpretado e conhecido. 

Roberto DaMatta em “Carnavais, malandros e heróis” analisa os aspecto simbólico da cultura brasileira. Publicado em 1979 o livro tornou-se clássico da Antropologia. Na primeira parte – “Carnavais, paradas e procissões” – ele revisita teóricos que trabalham o conceito de ritual, inovando ao definir que o ritual e a vida cotidiana são feitos da mesma matéria, símbolos, signos e regras, sendo ambos discursos, mas que se diferenciam por certos mecanismos de intensidade, que dão o tom da mensagem.

Porque tudo é uma questão de comunicação, cada ação é uma fala e algumas áreas da Antropologia tentam desvendar essa gramática. Para DaMatta o carnaval é um ritual de inversão, quando se mostra tudo que é marginal na sociedade, são os dias nos quais o pecado se permite. Caracterizado pela informalidade, tendo por palco a rua, descentralizado. Mas é, acima de tudo, um evento fora da rotina e previsto, ou seja, ainda que subversivo, ele tem começo e fim. É uma suspensão temporária das regras.


E se o carnaval suspende a hierarquia, a parada militar (1979, ditadura, militares no comando do Estado...) seria um ritual de reforço das hierarquias. Formal, com local definido e organizado, o público que passivamente assiste o desfile dos militares armados, reforçando que detém o uso da força e em honra aos líderes da instituição mais poderosa do país (na época, ainda bem). Os dois rituais seriam dramatizações da hierarquia e da licenciosidade, discursos diferentes sobre uma mesma sociedade, tão diferentes, mas oriundos da mesma realidade. 


Apenas como estudante de Ciências Sociais não tenho bagagem teórica suficiente para analisar e desenvolver qual seria o ritual de reforço que temos hoje, ou até se o temos, mas é muito claro que DaMatta continua atual. Apesar dos avanços, como grupos que lutam contra a homofobia e o machismo, eventos como a Parada do Orgulho LGBT e a Marcha das Vadias, e o fato de não serem mais tabus inquestionáveis; é preciso lembrar sempre de o quanto o carnaval ainda é o momento de subversão e no resto do ano se volta ao que é considerado "normal". Oras, devia ser normal ser o que se é, sem medo de retaliações, demonstrar afeto em público, vestir a roupa que se tem vontade, isso deveria ser liberdade e só.


Os memes feitos pela Mariana Bertoche, postados na fan page do Chatas sobre Carnaval  tiveram uma repercussão imensa, mas muita gente entendeu algo completamente ao contrário do que queríamos dizer. Acontece. Mas que fique claro, a crítica não é ao carnaval, cada um curte a folia como quiser. Nossa crítica é que: se podemos respeitar o outro no carnaval, por que não no ano inteiro? Sabe, tentar prolongar esse espírito de celebração do amor seria algo muito bonito de se ver e eu tenho esperança, principalmente de que as crianças aprendam cada vez mais como amar não deve responder a modelo nenhum e de que o tamanho de uma roupa não justifica violência, nunca. Tendo esperança nisso fica mais fácil continuar, e falar, com som e fúria, sempre. 


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DAMATTA, Roberto, 1980, Carnavais, Malandros e Heróis. Rio de Janeiro, Zahar.

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