quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Combatendo a Síndrome de Bela Adormecida no Sonho Americano

Nos últimos tempos, tenho acompanhado notícias estimulantes vindas de lá dos Estados Unidos da América. Nada a ver com sua política externa ou qualquer outro aspecto do governo Obama. As notícias que me animam vêm fragmentadas e em colunas de fofoca, em entrevistas coletivas, em blogs espalhados pela internet. 

           Me fascinam as declarações e os posicionamentos de três atrizes de Hollywood. Estas são Jennifer Lawrence, no começo de sua carreira global, Anne Hathaway, se firmando nos holofotes, e Meryl Streep, sempre divina, pairando acima de todxs. As três costumam escolher papeis que retratam mulheres como sujeitos totais. Complexas, contraditórias, se debatendo nas amarras do mundo em que vivemos. Para além dos papeis que escolhem interpretar, sua forma de lidar com a imprensa e as declarações que dão a ela são muito importantes.

Vivemos em uma era de culto extremado à magreza e à juventude do corpo e as atrizes da maior indústria cinematográfica do mundo são usadas como exemplo constante do que nós, “mulheres comuns”, devemos ser. Quando se submetem, quando divulgam suas dietas para se enquadrar em um papel mais do que o papel em si, quando sorriem sempre, dóceis, aos flashes, as atrizes compactuam com um mundo que gerou uma epidemia de transtornos alimentares e automutilações entre meninas do mundo inteiro (incluo algumas cirurgias de modificação corporal como automutilação, mas sintam-se livres para discordar). Exigindo que as atrizes ajam assim, os empresários, os produtores, os diretores, os editores, os jornalistas... os homens (e, com menor poder nos topos das cadeias, as mulheres) que se propõem a conservar as coisas “como estão” mandam uma mensagem para todas nós.


O melhor exemplo que consigo encontrar disso é o processo de demonização feito com Kristen Stewart. (Ela não consta em minha lista de “atrizes aliadas do feminismo” porque concordou em interpretar Isabela Swan, da saga Crepúsculo - um dos maiores símbolos do conservadorismo que temos no mundo contemporâneo). A atriz sempre se recusou a posar sorrindo nas fotos para paparazzi (exceto quando tem de fato vontade de sorrir por estar feliz com alguma coisa) e fez críticas públicas à pressão exercida somente em atrizes para que elas estivessem sempre posando, sempre agradando o público. Resultado? Poucas de suas declarações críticas foram divulgadas e Kristen sempre foi retratada como “antipática”, para dizer o mínimo. Correlacionado a isso ou não, há alguns meses a mídia exultou com a suposição de que Kristen tivesse um envolvimento com o diretor do filme “Branca de Neve e o Caçador”, do qual ela é a estrela. O homem é famoso e casado, mas não foi o seu nome estampado nas manchetes. Tabloides venderam milhares de edições com as imagens em questão e não se empenharam em estampar em suas páginas que havia declarações de que as fotos seriam montagens. Montagens grosseiras, de acordo com quem entende do assunto.


Jennifer Lawrence se recusou a emagrecer para interpretar Katniss Everdeen em Jogos Vorazes e deixou bem claro que sua personagem era uma caçadora, logo tinha condições de se alimentar e à sua família, logo não havia nenhuma necessidade de Lawrence tornar-se esquelética. Elucidando para quem não conhece a atriz: ela não é sequer gorda! Mas está fora dos padrões de Hollywood e das revistas de moda (mesmo sendo branca e loira). Além disso, ela critica abertamente xs roteiristas de Hollywood e, como muitas outras, clama por personagens mulheres que não sejam apenas adereços bonitos a uma história. Mesmo eu acreditando a escolha de Jennifer para o papel ter sido bem racista (a personagem é descrita nos livros como possuidora de “pele de oliva” e, por trás de todo o simbolismo da série, eu creio que a autora queria dizer algo próximo a árabes ou latinxs), ela é uma atriz de nuances que soube retratar Katniss muito bem (driblando a péssima direção do filme). Me senti confortada ao perceber que a ênfase em sua atuação estava nos Jogos, na revolta de Katniss, e não no triângulo amoroso (completamente secundário nos livros).


Meryl Streep é, ouso dizer, uma das maiores atrizes vivas. E prezou em sua carreira por escolher sempre personagens femininas que fossem intrigantes, multifacetadas e lutadoras. Aos sessenta anos, divulga não ter feito nenhuma plástica (apesar de se render a cremes de rejuvenescimento – tudo bem, Meryl, todxs nos rendemos ao sistema em algum ponto) e nem pretendê-lo. Não esconde sua idade e não tem medo de escolher papeis que mostrem-na sob ângulos “menos favoráveis” (considerando o padrão de beleza vigente). Interpretou Julia Child sem problemas em aparecer gorda e Margareth Tatcher cheia de rugas e velhice, por exemplo (apenas de filmes mais recentes). Meryl Streep critica publicamente Hollywood por ignorar mulheres com mais de 40 anos em seus filmes, lhes reservando papeis apenas de “bruxas” ou “avós”. E leva multidões aos cinemas e coleciona indicações ao Oscar como eu coleciono cartões postais.


Mas quem tem roubado meu coração com comentário após comentário é Anne Hathaway. Ela se declara publicamente participante da causa LGBT e faz declarações tão próximas do feminismo que eu choraria de felicidade se ela se declarasse integrante do time, como Ellen Page. Se recusou a ficar falando de dietas e do traje de Mulher-Gato em si, nas coletivas sobre o último filme da versão dirigida por Christopher Nolan de Batman (que, sinceramente, divide minhas opiniões), e a glamourizar seu emagrecimento abrupto para viver Fantine na última versão de Les Miserables (estreia em 1º de fevereiro, quem estamos ansiosxs para vê-lo?). Deixou bem claro que não foi um processo saudável, que ela “deveria parecer que estava morrendo” (suas palavras, em uma entrevista). 

          Por que precisamos disso? Por que ainda precisamos do feminismo, de luta feminina? Porque, enquanto eu escrevo esse post, milhões de meninas choram porque nunca serão como as imagens cheias de photoshop nas revistas. Choram porque são ridicularizadas na escola, na rua, em casa por não serem quietas, calmas, doces. Choram porque querem ser pessoas, porque querem ser respeitadas e admiradas. E se forçam a vomitar comida e a não comer. E se cortam. E se matam (ou tentam). Precisamos do feminismo porque nossa batalha contra a opressão não terminou. Na verdade, nossa batalha contra as opressões (no plural) está apenas começando. E, enquanto as gentes caminharem pelas trevas e murmurarem entre as pregas, precisaremos de pessoas que nos mostrem que é possível ser diferente. Que é bom ser quem somos. Que beleza é um conceito relativo. Que saúde é se amar. Precisamos de exemplos diários de que vale a pena continuar lutando e atrizes de Hollywood dialogam melhor do que ninguém com as meninas que compram o sonho americano.

Creio que são nossas aliadas porque, através delas e de tantas outras, poderemos finalmente acordar do sono dos séculos. Com sorriso e paixão.



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 Maria é petulante e sente o mar de Copacabana no estômago quando vê injustiças. O que faz com que, vivendo nesse mundo, seu universo particular seja revolto. Comunista, crê que Revolução, por ser um substantivo feminino, só pode ser falada corretamente se for feminista. Tornou-se mulher aos trancos e barrancos, sendo sempre outsider. Como seu eu é “tudo junto misturado ao mesmo tempo agora”, seus textos em prosa são sempre meio poéticos e suas poesias são sempre reflexões e conversas. Nunca rimam. Ela foi aprendendo, com o tempo, a ser ela mesma, a ser Chata com orgulho. Mas, no fundo, queria mesmo ser é a Cássia Eller. E, quem sabe, com um bocado de Clarice Lispector e Rosa Luxemburgo.

Maria é nova companheira de chatice e agora também faz parte  do Chata de Atenas!

5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Oi, Maria!
    Descobri o Chatas por acaso, depois descobri que estamos no mesmo grupo de discussão (Faculdade Nacional de Direito - FND). Gostei muito das suas opiniões, tanto lá quanto aqui.
    Continue escrevendo!

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    1. Obrigada, Lorene!
      Espero que goste de meus próximos textos!
      Se tiver curiosidade, eu escrevo em dois outros blogs: http://leaodarosa.blogspot.com e http://marialasilveira.blogspot.com

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  3. ola, descobri o chatas de atenas fussando a internet, adoro esses assuntos!seu texto é muito bem escrito e reflexivo, todas as jovens deveriam ler. parabéns, maria! serei frequentadora assidua! :)

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    1. obrigada, Emilia! espero que goste do próximo texto!

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