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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Querido pastor Silas Malafaia,


Querido pastor Silas Malafaia,


Obrigada pela aula magistral oferecida na noite de ontem no programa de TV “De Frente com Gabi”. Foi uma aula incrível de sofismo e eloquência. Quisesse todas as causas ter um defensor como o senhor (ou você, como insistiu em ser chamado), tão inflexível, e com o dom de torcer tudo a seu favor. Não me espantaria se pessoas ingênuas passassem a acreditar, sem maior senso crítico, em qualquer absurdo que você declarasse. Com tamanha paixão e agressividade, usando o tom de voz para disfarçar inconsistências, você mostrou o como é possível fazer tudo o que se diz parecer incontestável, frente a uma pobre Gabi que mal conseguia completar suas perguntas (que não eram de fato respondidas) sufocada por tamanha “eloquência”.

E que maravilhosa aula de genética! Falando em cromossomos, genes, o senhor fez mesmo a lição de casa. Mas por favor, só peço que me perdoe, mas me recuso a ser simplesmente fêmea, oposto do macho. Não me entenda mal, mas é que eu acredito que o que faz de mim mulher é bem mais que meus cromossomos xx, meu útero ou minha vagina. Me desculpe se na minha ignorância biológica eu entenda que ser homem ou mulher transcenda isso, e se na minha ânsia por ser bem mais que um mero determinismo genético, programado para viver e reproduzir, eu prefira entender que ser homem ou mulher não se resume a um acidente ocorrido no momento da fecundação. Afinal, parece tão leviano descartar toda a carga psíquica e cultural sob a qual vivemos, não? Ah, e desculpe ainda minha ignorância se eu não consegui acompanhar seu argumento. Afinal, o que nascer homem ou mulher tem a ver com ser ou não gay? Não consegui observar de que forma minha sexualidade está ligada ao meu gênero. Se como você disse “não existe um gene homossexual”, não encontrei também em nenhum livro por aí um “gene heterossexual”.

E ficou muito claro aqui também que nenhuma luta pelos direitos das minorias é válida. Afinal, porque uma mulher, um negro ou um homossexual deveria ter mais medo de ser agredido que o senhor, homem, branco, heterossexual e de classe média (porque aparentemente não se pode chama-lo de rico), não é mesmo? Afinal, não é como se para esses grupos a razão da agressão fosse simplesmente o fato de ser como é. E eu aqui, toda ingênua, achando que os homossexuais (como mulheres e negros) só queriam ser parte integralmente da sociedade que vivem, e não ter direitos a mais. E eu achando que eles só queriam se casar, criar filhos, assim como o senhor e os membros da sua igreja e não conquistar um direito que vocês não tenham. Mas quem diria, veja só, que essas leis poderiam privar o senhor e outras pessoas de mente igualmente incorruptível de expulsar casais do pátio da sua igreja. E Pastor Silas, ninguém vai denunciá-lo simplesmente por olhar para uma dessas pessoas. Afinal, o que as minorias mais querem e pedem é que as pessoas, assim como você, possam olhá-las no rosto, compreender seus problemas, enxerga-las como parte da sociedade. Só mais uma duvidazinha: o que o senhor diria para mãe (ou pais) solteiros ou viúvos? Como eles vão conseguir criar um filho sozinhos, sem um parceiro do sexo oposto? Como vai crescer essa pobre dessa criança? Esse não é um exemplo tão recente, e talvez o senhor não precise esperar trinta anos para me responder.

E claro, o senhor fez a todos nós um grande favor ao corrigir o enorme equívoco de pensarmos que o senhor estava “julgando” a atitude das pessoas. Na verdade, o senhor está simplesmente condenando, não é? Afinal, condenar sem julgar é uma atitude maravilhosa, muito mais digna de um homem de Deus.  E quanto ao seu amor, prestado igualmente a homossexuais, bandidos e assassinos, acho louvável a comparação. Afinal, amar alguém do mesmo sexo é quase a mesma coisa de matar uma pessoa. Talvez eu tenha interpretado mal o que –para mim- é o maior dentre todos os ensinamentos cristãos: amar ao próximo como a si mesmo, nem mais, nem menos, em toda a sua maravilhosa completude como obra de Deus, sem julgar suas ações ou práticas. Apenas amar. Matar, que se não me engano vai contra um dos dez mandamentos, com certeza não é tão diferente de uma prática de amor.

Acho impressionante também sua opinião sobre o islamismo, que segundo o senhor é “de um radicalismo horroroso àquilo que chamamos de religião”. Claramente o senhor não é nenhum profundo conhecedor do islamismo que, assim como o cristianismo, se divide em diversas correntes, mais ou menos radicais. Assim como o cristianismo é a religião do amor o islamismo é a da paz, mas infelizmente cada um lê suas escrituras como bem entende. Claro que, com isso, muita coisa se explica. Afinal, o que o senhor pratica nessa sua febre apaixonada de radicalismo provavelmente é algo bem diverso de religião, seja lá o que for.

E por fim meus parabéns à Marília Gabriela por ter tanta classe e autocontrole em quase uma hora de frente com o senhor. Porque Deus (que como ela bem disse, não sei se o meu é o mesmo do seu) me poupe de algum dia ter que aguentar 5 minutos nessa mesma posição.


E para quem possa interessar, essa linda aula etá disponível no youtube nesse link: Silas Malafaia - De frente Com Gabi

E fica também uma reportagem a título de curiosidade: Super Interessante: 4 mitos sobre filhos de pais gays

Esse é pra quem tem interesse em uma resposta um pouco mais técnica que a minha: Resposta de geneticista a Silas Malafaia

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

E daí? Eu também sou travesti!

Este post faz parte da blogagem coletiva da Semana da Visibilidade Trans.

Bandeira do Orgulho Trans -
Segundo sua autora: "Azul para meninos, rosa para meninas,
branco para quem está em transição e para quem não se sente
pertencente a qualquer gênero. Simboliza que não
importa a direção do seu vôo, ele sempre estará correto!"
Hoje, dia 29 de janeiro, é o Dia Nacional da Visibilidade Trans, que foi instituído em 2004, sendo resultado das reivindicações do movimento trans. Mas o que é trans? Este tema já foi abordado habilmente pela chata Andressa . Mas vamos retomar brevemente alguns conceitos básicos. 

Já sabemos que o gênero é socialmente construído e que portanto ser mulher no Brasil é diferente de ser mulher na China, pois sua expressão é diferente, assim como seus papéis sociais; E que orientação sexual se refere ao direcionamento do interesse afetivo-sexual a uma pessoa que pode ser do gênero oposto, do mesmo gênero ou de ambos, configurando orientações sexuais heterossexuais, homossexuais ou bissexuais, respectivamente. Trans é um conceito guarda chuva, que engloba tudo aquilo que não se enquadra no alinhamento entre sexo biológico e gênero; ou seja, uma pessoa é cis quando nasce com um pênis e ele se identifica com o gênero masculino ou quando ela nasce com uma vulva/vagina e se identifica como mulher . Mulheres e homens trans podem ser heterossexuais, homossexuais ou bissexuais, ou seja, a sexualidade independente do gênero com o qual elxs se identificam.


Símbolo Trans
Se hoje a homossexualidade já não é considerada uma doença, as pessoas trans ainda sofrem pela patologização da sua condição. Isto é, o discurso médico, que não é neutro, considera a transexualidade um desvio psíquico que precisa ser tratado e que, no limite, sua “cura” se daria com a cirurgia de adequação genital, a transgenitalização. Nem todas as pessoas trans desejam fazer esta cirurgia por motivos diversos, mas todas elas querem ser reconhecidas pelo gênero com a qual se identificam, daí a importância do nome social em todos os espaços e do livre acesso aos banheiros, por exemplo. Negar isso a elas é transfobia, a mesma responsável pela morte de 128 trans no Brasil no ano de 2012, segundo o relatório do Grupo Gay da Bahia. Número que é subestimado, já que os dados desse tipo de crime de ódio depende da denuncia de ONGs e das notícias, mas quantos casos não viram notícia?  A população trans, em especial as travestis, vivem à margem da sociedade, tem um alta evasão escolar devido a todas dificuldades institucionais em lidar com diversidade sexual e são desde cedo levadas a acreditar que não há outra perspectiva de futuro, senão na prostituição.

Dentro deste cenário, é com felicidade que ano passado vimos a primeira travesti conquistar o título de doutora pela Universidade Federal do Ceará. Luma Andrade é, não só  um exemplo para milhares de jovens que diariamente sofrem bullying, mas também representa fôlego e esperança para mais conquistas do movimentos trans.

Para quem quiser pensar mais sobre o assunto, indico as entrevistas com Laerte (a grande maioria disponível no Youtube), pois ele além de representar uma transgressão a cisnormatividade, faz um bom debate sobre gênero e sexualidade. Também recomendo fortemente alguns filmes/documentários com diferentes abordagens:

Amanda (esq.) e Monick (dir.): Os depoimentos
surpreendem e emocionam
Amanda e Monick (2008) é um curto documentário brasileiro sobre duas travestis de Barra de São Miguel (Cariri da Paraíba) que narra um pouco de suas trajetórias, falando sobre família, religião, preconceito e amor.
http://www.youtube.com/watch?v=LqzEAai25cE





Da esq. para dir: Chaz e sua mãe Cher
Becoming Chaz (2011): documentário sobre o filho da diva gay Cher, que era a princesinha da mamãe, Chastity, mas nunca se sentiu confortável em seu próprio corpo e aos 40 anos começou o processo transexualizador. É interessante pois mostra como é parte desse processo de transição mulher para homem (FtM - female to male), que menos conhecido que o MtF (male to female). Além de mostrar a dificuldade da própria Cher em lidar com essa situação. 
Aparentemente tem inteiro no Youtube somente com legendas em inglês; aqui está a primeira parte: http://www.youtube.com/watch?v=YmSSrlWoeVs.

Minha Vida em Cor de Rosa (1997) é um filme muito delicado que conta a história de Ludovic, um garoto que acabou de se mudar sua família para o subúrbio de Paris, e que não entende porque não pode usar “roupas de menina”, uma vez que se sente como uma. Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=D5IEZFA4Pzs

Tomboy (2011) outro filme francês muito tocante que lembra o Minha Vida... por tratar de uma garota, Laura, que também acabou de se mudar com sua família e sua primeira amizade na vizinhança já a confunde com um garoto. Ela não faz questão de desmentir e conta com a cumplicidade de sua irmã mais nova para sustentar a história aos longo das tardes de brincadeiras. Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=QYMydyLCTpw

Poster do fime Transamérica
Transamérica (2004): para quem ainda não viu, o filme é sobre uma transexual que está prestes a fazer sua cirurgia de adequação de sexo e descobre que tem um filho adolescente.  Disponível completo no Youtube com legendas: http://www.youtube.com/watch?v=uK4vyg3j2tM

Quem quiser se aprofundar um pouquinho mais no debate, fica esta leitura: "Orientações sobre a população transgênero : conceitos e termos" da Jaqueline Gomes de Jesus, que é doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília – UnB e pesquisadora do Laboratório de Trabalho, Diversidade e Identidade – LTDI/UnB

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Propaganda como Fábrica da Mulher Brasileira


Para Simone de Beauvoir (1908-1986), filósofa feminista, “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. De acordo com a sociologia, esse tipo de identidade é construída gradualmente e tem influências (sociais, familiares, ideológicas, culturais e etc) que são moldadas de acordo com o contexto de época e de lugar em que se insere. O modo de ser, agir e pensar da mulher é criado, portanto, de diferentes formas em cada geração das populações. E a desigualdade de gênero é uma dessas criações sociais históricas. 

Vivemos na sociedade brasileira do início do século XXI, com uma cultura abundante e múltipla, típica do quinto país do mundo em área de território. Em menos de 500 anos de formação, tivemos diversas tipificações e identidades de brasileiros, que vão desde caracterizações econômicas até regionais, de costumes e de gênero. Características formadas, estrategicamente ou não, por setores da mídia e culturais, como imprensa, arte e, principalmente, pela propaganda. E como se dá essa formação? Estudamos desde a entrada na educação formal a História da Humanidade através dos acontecimentos que envolveram ação direta do homem. As relações sociais e seus períodos históricos, entretanto, são tratadas com menor importância. Será que esse tratamento secundário é adequado para a formação de uma sociedade mais esclarecida?
Propaganda dos anos 50 - "Mantenha ela em seu lugar"