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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Guest Post: De Lira


A garotinha fazia quadros para ver se a chuva cabia na pintura, pra segurar o sabor das coisas. Talvez a ideia grudasse na cor, talvez o vento tropeçasse pelo caminho e parasse pra respirar ali. Talvez todas as criaturas impossíveis fossem lanchar junto dela. Talvez, então, suas mãos pudessem correr tão soltas quanto havia as pintado pra ser. Mas apenas seus olhos tinham permissão, secreta, para furar as formas. Mastigando perfumes e apertando ponteiros, ela se conhecia: Lira, colecionadora de fatos.

Um rio correu entre ela e a senhora comprida do trem.

Planos espumando na xícara, ardendo o café. O penteado prendia fios brancos e pretos em um coque mal afrouxado. A ventania carregava a fumaça da boca e corria com os pensamentos janela afora.  Nada de sentar-se e assoviar uma canção. O tempo de soprar e escrever desenhos azuis não cresceria nela de novo. Mergulhou o cigarro na xícara cheia. Os planos na verdade queimavam e morriam na mesinha à sua frente.

Deslizou dali, azul afora, para sua figura magra adolescendo ao sol.

Uma voz aguda escapava do rádio, domando a tarde. Pequenas rebeliões comiam o ar em volta da moça. Biquíni amarelo e cabelos deitados na grama, o braço esquerdo afundando na piscina. E o rapaz lhe agradando com a boca, lá embaixo. Lira enxergava um céu trêmulo de festa em seu corpo. Apertava o biquíni com a mão encharcada, corando e aprendendo o arrepio. Com a mesma saliva, ele encontrou sua boca. Desembaraçavam as vergonhas e os receios, despertos e esclarecidos. Atravessando a tarde, a mesma voz ainda soava, vívida e agreste, libertando toda muda de flor que não conseguisse nascer para além de si, todo verbo enterrado na boca.

Afundou no gelado, de volta à infância laranjada do quarto.

Lobos giravam num voo pausado: a tela mais recente secava debaixo do ventilador. Lira romantizava sobre alguma angústia, choramingando no caderninho, ainda lambida de tinta, aqui e ali.  Triste e sombria, desaguava em cima dos papéis e pincéis partidos. Os gritos ainda a buscavam, tentando pingar intolerância por algum caminho ou buraco sagrado. De teimosia, Iluminou mariposas e liberdades pela parede mesmo, fazendo fogueira pra afastar as bestas. Enquanto o corpo virava quadro renascentista no espelho, a mente se arreganhava. Mais quente, mais espaçosa. Estava sentenciado em cada palavra desenhada sua: faria da ruptura uma sina. Cresceria, engolindo todas essas prisões.

As pernas se esticaram, nuas, no molhado e imprimiram bem no jornal.

Grave e desbotada, a senhora no trem não lia nem três parágrafos sem que a vista doesse ou a paciência se fatigasse de qualquer informação avessa às convenções. Já conhecia o suficiente de tudo, da falta de gentileza do tempo e das ordens do mundo. A ferrovia corria debaixo dos vagões, a janela deslizava na paisagem, as horas nunca andavam pra trás. O horror traz certezas. Naquela mente guardada entre roupas, doutrinas e códigos não caberiam canções.

Coloriu a indecência, pixelizada.

O agudo vibrava de dentro da TV, a cantora de coxas nuas batucando na madeira, o violão aninhado em seu peito; sabia ser olhada, sabia ser entendida. Lira a ouvia enquanto amansava os rugidos de crescimento em seu ventre, era o quarto mês. A barriga anunciou, lá pelo quinto, a criança clandestina para a irmãzinha Ana, que testava sua habilidade em girar maçanetas. Os disfarces e seu dom pra invisibilidade não funcionariam. Do rapaz sobrou pouco mais que um retrato no quintal; ela carregaria, só, a filha daquela tarde. Olhou pra mãe enojada, a condescendência do pai doía na culpa. Só de imaginar, ela encolhia. Fraquejou, aprumou as penas. De lembrete, nem um par de meias debaixo da cama. Dessa vez não tinha como quebrar a tela, borrar a tintura, a travessura de Lira era vida crescente, engatinhava e vinha com fome. Fez-se grande pra abrigar Ananda em seu vento.
                 
A figura velha e cansada padeceu, desaparecendo num infinito branco, seguindo o destino do trem. Parou de ser, tamanha era a ausência de tinta.

A mulher do trem, por sorte ou por arte, nunca existiu. Só mesmo Lira, mãe passarinha, menina pintada e mulher n’água a transformar riscos de chuva em represa, papo furado em assovios elétricos contra a velha cisma humana de estabelecer quadrados. 


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Fernando Ananias, mato-grossense que faz das palavras brincadeira, tem um quê de Manoel de Barros e Rubem Fonseca, sinestesia e criatividade, personagens memoráveis e histórias surpreendentes. Promessa da literatura brasileira que tenho o orgulho de conhecer. Pedi que escrevesse algo sobre mulheres, uma encomenda para lembrar os velhos tempos de compartilhamento das letras e o resultado foi esse conto tão especial.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Por que sou feminista?


Por que eu sou feminista? Porque eu tenho uma vagina. Porque tenho um coração pulsante e um cérebro pensante. Porque tenho 46 cromossomos e um mínimo de humanidade que os acompanha. Porque adoro usar roupa colada, shorts curtos, cabelos coloridos. Adoro andar sozinha pela rua, pensar na vida. Mas tenho medo. Por isso sou feminista. Porque acordo todos os dias e vejo coisas que me incomodam. Porque o que eu não vejo incomoda ainda mais. Porque a dor silenciosa de pessoas envergonhadas me sufoca. Porque cada vez que vejo uma estatística sou incapaz de ler números e não seres humanos.
 
Porque feminismo não é sobre feminilidade, é sobre humanidade. Sou feminista porque tenho vontade de apresentar minha amiga e a namorada dela pras pessoas e não receber olhares arregalados em troca, nem comentários sobre como ela é “feminina demais para ser gay”. Sou feminista porque quero ouvir de um rapaz de 20 anos que ele é virgem por opção sem eu mesma olhá-lo com um olhar arregalado. Sou feminista porque quero ir pra uma balada gay com meus amigos sem ter a minha sexualidade questionada por isso. Porque quero falar da minha carreira dos sonhos para alguém sem ouvir que é coisa de homem, e falar que quero me casar de branco, ser mãe e esposa sem ouvir que sou submissa. Sou feminista porque não tenho a menor vergonha de ser mulher, de ser diferente ou ser igual.

Sou feminista porque sinto dor, sinto medo ao observar o mundo que me rodeia. Quero decidir sobre o meu corpo. Com quem transar ou não transar, abortar ou não abortar, ser freira, ser prostituta, casar virgem ou experimentar. Por ou não silicone, fazer ou não tatuagem, pintar ou não o cabelo, ser mocinha ou ser moleca. Sou feminista porque quero me sentir segura para gritar minha individualidade, sabendo que não estou sozinha, somos um grupo. Porque não quero ter medo de entrar em um ônibus lotado. Sou feminista porque eu sei que a violência contra as mulheres e homossexuais é contada a muitos zeros, e que todas essas vítimas, sobreviventes, estão aí fora precisando de conforto, de justiça. E que justamente por serem tantas não podem se calar.  Porque não quero ser culpada pelas agressões que sofro diariamente, nem quero que ninguém seja. Sou feminista pois não quero que pessoas se joguem de prédios ou sejam jogadas de trens em movimento para que possamos apontar dedos, indicar culpados e pensar em quão danoso é o silêncio.

Sou feminista porque quero viver num mundo em que não sejamos ensinados a ser homens ou mulheres. E que uma vez que aprendamos possamos fazer disso o que quisermos. Para que possa ter uma filha engenheira ou um filho professor primário. Que possa ter uma filha que goste de garotas ou um filho que na verdade seja filha. Sou feminista porque estou farta de viver numa sociedade onde uma mulher que gosta de crianças desperta encanto enquanto um homem que gosta de crianças desperta desconfiança. Porque quero viver numa sociedade onde todos possam ter seus instintos “maternais”. Sou feminista porque eu sei que feminismo não é um movimento pelas mulheres, é um movimento pelos seres humanos. Porque o machismo faz de vítimas todos nós. Sou feminista porque esse foi o jeito que encontrei de tirar da garganta esse grito sufocado por IGUALDADE.

Sou feminista porque não me conformo. Porque quero viver em um mundo melhor, onde nem tudo seja cor-de-rosa, mas seja rosa também. Ou azul. Ou tão colorido quanto o arco-íris. Quero que as palavras que eu uso não sejam sempre interpretadas como mostras do meu caráter, afinal, mocinha também fala palavrão, mocinha também é chata, mocinha também diz não. Sou feminista porque “não é não”. Porque quero que um dia não seja preciso chocar para sensibilizar. Sou feminista porque quero, um dia, viver num mundo com menos ismos. Sou feminista porque tenho amor próprio. Sou feminista porque sou humana.




domingo, 14 de outubro de 2012

Por que?

Há alguns anos atrás escrevi um texto em meu blog pessoal que demonstrava todas as minhas dúvidas e crenças, equívocos e disparates sobre o feminismo. Eu não sabia o que era, por isso não me declarava como tal. Mas creiam, caros leitores, não titubeio: em meu corpo habita uma alma feminista

"Ah, mas discutir polêmicas como aborto, cotas, racismo e política em geral é perda de tempo. Cada qual com sua opinião vai defender apenas o que acredita, vira uma guerra de inteligências". Eu já disse isso, e não me envergonho de assumir que estava errada, "volver siempre, olvidar jamais". E hoje, ao invés de criticar alguém ou algo, resolvi resgatar minhas antigas opiniões, comparar e quem sabe, levar você que lê a tentar mudar de ideia também.
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Gênero é algo construído socialmente, digo isso porque estudando diversas sociedades e seus sistemas de organização vemos que há modos e modos de ser homem e mulher (ou qualquer outro gênero). Não é da "natureza humana" que a mulher seja "Como se fosse uma frutinha doce/ Que a gente guarda pro jantar./ Como se fosse uma viola nova, /Que a gente gosta de tocar", como bem cantou Nara Leão, sobre a figura da donzela. Sinto muito aos que acham que as meninas já nascem gostando de rosa e coisinhas fofinhas e os meninos, cheio de energia para jogar bola e comandar o mundo, não é bem assim. A questão é que somos ensinados a ser esse tipo de homem e esse tipo de mulher. 

E por mais que hoje seja bem diferente do século passado, por exemplo, quando as mulheres eram privadas de direitos básicos do ser humano, necessários à uma democracia, como direito à propriedade, à herança, ao voto, à assumir cargos públicos, etc etc etc; ainda há um longo caminho pela frente.

É nisso que o feminismo atua, nesse caminho para que independentemente de ser homem ou  mulher, a pessoa, como ser humano que é, tenha seus direitos assegurados (e deveres também, é claro). 

 "Já ouvi milhares de pessoas dizendo que é coisa de mulher “mal comida”, feia e que quer ser intelectual. Que é o equivalente do machismo, que só aprofunda a guerra entre os sexos, que não serve pra nada. Não sei exatamente o que penso, mas acho que tem seus prós e contras, não se pode jogar no lixo. Afinal, o movimento feminista teve muitas vitórias, conseguiu, ainda que não por completo, libertar em partes as mulheres, sexual e politicamente."

Cristo! Como eu estava enganada! 1. Não sei da vida sexual de todas as pessoas feministas (não somos só mulheres, juro). 2. O equivalente do machismo é o femismo, dá pra perceber pela etimologia da palavra, e nem sei se isso existe, nós nunca estivemos no topo das paradas pra querer manter a ordem opressora vigente. Dizem que há esse feminismo radical que quer extinguir todos os homens da face da Terra (muahahaha) e que viria a ser o equivalente do machismo. Bom, já é uma prova de o machismo não é legal. E uma coisa bem óbvia, os homens ou as mulheres não são todos iguais, essas denominações não conotam o caráter de ninguém. 3. Não acredito hoje que existe uma guerra dos sexos (por mais que a novela das sete tenha esse nome...) O feminismo combate a prática machista e não os homens, tão tal que só o que temos são mulheres machistas! Como principais responsáveis pelo processo de socialização das crianças, são as próprias mulheres que reproduzem o discurso patriarcal, numa coisa meio maluca. Isso sim é alienação, atentar contra si mesmo sem saber (ou sabendo). 4. Agora eu sei o que penso, o movimento feminista teve suas vitórias e no momento, há quem diga que vivemos uma terceira onda feminista, com a Marcha das Vadias, que eu tenho orgulho imenso de fazer parte.

E por o feminismo tratar geralmente de assuntos sobre a mulher, estudos de gênero são naturalmente compreendidos como estudos sobre mulheres, só que não. Oras, o feminismo nasceu lá no fim do século XIX, a tal modernidade se equilibrava na "democracia" e no "progresso". Papéis declaravam que todos os homens eram iguais, que todos eles tinham o direito essencial de possuir a própria vida. Baseadas nisso e de forma muito inteligente, nossas ancestrais protestaram pelo direito de voto, herança e propriedade. Na Inglaterra nasceu  o feminismo liberal. Com o desenvolvimento da vida urbana, a organização dos movimentos operários e Marx bradando que o proletariado se unisse, o marxismo foi ganhando força e surgiram novas análises da exploração. A burguesia --> proletário --> esposa do proletário. Seria então a mulher, através do trabalho doméstico, o cocô do cavalo do bandido, que possibilita a mais-valia do possuidor dos meios de produção (o patrão) sobre o que vende sua força de trabalho (o operário). Pois é, o feminismo marxista "descobriu" que realmente, a origem da desigualdade dos homens está na divisão do trabalho que a família institui (necessário, segundo Marx, para a produção e reprodução da sociedade), sendo a mulher a explorada pelo explorado.

Na minha humilde opinião, o socialismo não vai libertar a mulher desta bendita exploração, nem o capitalismo; mas este último possibilita o que fazemos, reclamar, protestar e tentar reverter a ordem. Conseguimos ter o mesmo direito à educação, o mesmo dever de votar. Podemos seguir as mais diversas carreiras (ainda que enfrentando vários obstáculos) e já ocupamos cargos de poder na política e na economia, por exemplo. Fizemos muita coisa.

Em meu primeiro post no Chatas eu falei sobre o disparate de as mulheres serem mais de 50% da população mundial e serem consideradas "minoria sociológica", já que nossa representatividade não corresponde ao número real; e hoje eu falo novamente, acho errado. Na minha visão, o feminismo tenta ser o remédio disso. E se perguntam "por que, por que ser justo feminista?" Eu respondo numa prosa estranha: quero ser a cura para as meninas que não veem o futuro, para as moças que tem as asas podadas e os corpos mastigados. Eu quero ser o unguento que sara as mães dilaceradas e as crianças que não sabem, fronteiras não existem. Ah, eu quero espalhar a esperança e as possibilidades, eu quero ser o que somos, sem ninguém rasgando a pele. Então, me deixem ser nós, me abandonem feminista que sou e permanecerei feliz.




domingo, 16 de setembro de 2012

Pró-vida?



"(...) Os conservadores são realmente engraçados. Se você ainda não nasceu, tem o apoio deles. Fazem qualquer coisa pelos não-nascidos. Mas, depois que você nasce, você que se foda. Os pró-vida são obcecados pelo feto, da concepção até 9 meses depois. 
Depois disso não querem mais saber de você. Não querem nem mesmo ouvir falar de você. 

Nada.

Nada de assistência neonatal, nem apoio, nem creches, nem merenda, nem vales, nem plano de saúde, nem nada. Se você é um pré-nascido, tá bem. Se você é um pré-escolar, tá fodido (...)

Os conservadores estão pouco se fodendo pra você até que atinja a idade militar. Aí eles acham que você está no ponto. Justamente o que eles procuram. Os conservadores querem bebês vivos para que se tornem soldados mortos.

Pró-vida. Essa gente não é pró-vida, estão matando médicos! Que tipo de pró-vida é isso? Fariam qualquer coisa para salvar um feto mas se ele cresce e vira médico, talvez tenham que matá-lo?! Não são pró-vida. Sabem o que eles são?

São anti-mulheres.

Simples assim.”

Texto transcrito do show ‘Back in Town’, de 1996, de George Carlin.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Eu escolhi me proteger

 E mais uma vez a publicidade dá as caras no Chatas. Depois da propaganda machista apontada aqui por Jussara Jardim, é a vez da mídia cristã. 


Mesmo com pouco tempo de atividade, o ministério Eu Escolhi Esperar já mobilizou mais de 20 mil pessoas no twitter, e em cultos e palestras nas cidades brasileiras. A ideia central é incentivar o sexo apenas depois do casamento entre os jovens cristãos. Com a ideia da “escolha” no próprio slogan, não se pode negar que o conceito de liberdade está presente. O movimento é forte, prova disso é que vem ganhando cada vez mais adeptos, o que, claro, não significa que estes sejam mais dignos dos que os que escolheram aproveitar o agora. Até aí a campanha se legitima pela liberdade do jovem fazer o que quiser do próprio corpo. O que preocupa, a cristãos e não-cristãos, é a veiculação de campanha de sexo seguro após o casamento, dispensando o uso de preservativos.

Imagens como as mostradas aqui se aliam a frases como “Deus inventou o sexo seguro e o nome dele é casamento”. Não, meus caros, o nome é preservativo, e não, ele também não caiu do céu. O cartaz chamou a atenção de profissionais da saúde por ser considerado uma desconstrução de todo esforço de conscientização do uso do preservativo, que se faz de fundamental importância, e é hoje uma questão de saúde pública. 

Deus inventou o sexo seguro e o nome dele é casamento

O pensamento de que não se contrai DST’s dentro do casamento além de errôneo, é infelizmente bastante comum, visto o aumento desses casos entre pessoas casadas. Um estudo da Escola de Enfermagem da UFRJ, por exemplo, revela que a contaminação por HPV, vírus que pode levar ao câncer de colo de útero, é maior entre casadas do que solteiras. Entretanto, muitos casados têm receio de pedir o uso da camisinha por medo de ser acusado de infidelidade, e negligenciam o risco à própria vida. As autoras do estudo também ponderam: a DST pode ser fruto de um relacionamento antigo. O vírus pode permanecer anos adormecido antes de se manifestar. Fazer questão do uso de preservativo não é desconfiança, é cuidado, consigo e com outro.

Ainda no movimento Eu Escolhi Esperar, há a delicada questão da coisificação do sexo, tratado como um presente de natal para quem foi “um bom menino”, encontramos o seguinte comentário: 
Meu querido irmão, será que a sua esposa, na grande noite da vida de vocês, terá que fingir uma expressão de surpresa? Pois o grande presente já está “usado” e com um valor muito menor do que ele deveria ter? 
Querido irmão, sexo entre um casal não é objeto que se possa ser usado. Não é como um carro 0 km ou um semi-novo, que já perdeu valor pelo uso. Afinal, o presente da noite de núpcias é um simples rompimento de membrana? O laço de estar com a pessoa escolhida ao lado não importa? 

Segundo o Pr Nelson Júnior, próprio fundador do ministério, “A decisão de esperar é uma escolha voluntária e não pode ser fruto de uma pressão.” Nenhuma autoridade religiosa é melhor guia que sua consciência. Casado, solteiro, unido, cristão, ateu, hetero, homo, bi, trans... escolha o que melhor lhe convém, mas escolha acima de tudo a segurança.


Com colaboração de Leticia Messias.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Era uma vez?


Uma princesa, um empecilho, um vilão, o príncipe encantado e o amor verdadeiro, final com “felizes para sempre”, magia. Eis os temperos de qualquer conto de fadas, antes somente livros, mas hoje transformados em filmes que vendem, e muito.

A Disney eternizou grande parte das histórias infantis, tornando-as clássicos do cinema e marcando a memória de milhões de crianças. Mas também fomentou críticas e mais críticas sobre como seus filmes e contos reproduziam uma sociedade patriarcal e opressora que limita a felicidade feminina, cumprir seu papel de donzela e ser salva por um príncipe. De fato, a Disney ajudou na construção do imaginário popular do que deve ser um romance, de como a mulher deve ser singela e doce e o homem, corajoso e destemido; mas teoria da conspiração também não cabe aqui, caros leitores. Se houve lucro com essas histórias é porque as pessoas queriam comprar essas histórias.

E nesse raciocínio de que nas telas se reproduzem os desejos de quem compra, não somente isso, é claro; podemos recordar das personagens da Disney nos últimos anos. Eu fui criança no final dos anos noventa e começo do século XXI e minhas princesas favoritas eram Mulan e Anastasia, nada de Branca de Neve (bobinha, bobinha, dormiu não sei quanto tempo para ser acordada) ou Cinderela (que o príncipe não soube reconhecer o rosto, por isso calçou o bendito sapato em não sei quantas). E devo dizer que devo muito a elas. 

Desde o lançamento de Mulan em 1998 (no qual a moiçola se faz passar de homem para ir à guerra no lugar de seu pai e assim salva a China dos Hunos, mas também encontra o amor num general do exército) a companhia fundada por Walt Disney vem apresentando personagens não tão convencionais. Acredito que é porque as mulheres já não são tão convencionais para engolir qualquer história. Temos Tiana, de A princesa e o sapo, que não é princesa,não é branca de olhos claros, sonha em abrir o próprio restaurante e trabalha duro para isso. Temos Alice, que na versão de Tim Burton de Alice no país das maravilhas volta à terra maravilhosa na fuga de um casamento indesejado, numa viagem de autoconhecimento. E Enrolados, no qual uma Rapunzel muito teimosa deseja conhecer o mundo, maravilhar-se com ele. O que há em comum entre essas heroínas é que elas não são salvas por ninguém, porque na verdade elas não precisam.

E nessa mesma linha é que Valente nasce, presenteando as crianças com uma história de coragem, um conto de fadas que não termina em romance. Merida, princesa das Terras Altas da Escócia, decide brigar por sua própria mão (que foi posta a prêmio num torneio entre os clãs de seu reino). A cena na qual ela se declara disposta a lutar por si mesma é algo muito belo. É só um filme, eu sei, é só um filme da Disney; mas fiquei arrepiada, e não tenho vergonha em dizer.

É claro que o romance e o amor fazem parte da vida de uma mulher, fazem parte da vida de qualquer ser humano, o que eu sempre quis e vejo agora nesse filme é a liberdade de escolher e não a ideia de que só nos resta isso. Feministas não são criaturas amargas que odeiam os homens, nada disso, nós só queremos ter a escolha de um ou de outro ou até dos dois (porque é possível, há feministas casadas e felizes com suas famílias que também trabalham e são independentes, juro). E ver Merida nas telas me fez acreditar que o futuro das meninas que eu vejo hoje é exatamente esse,  l i b e r d a d e.

Aqui links de outros textos sobre Valente ou contos de fadas, vale a pena se aprofundar!
Ativismo no Sofá | Escreva Lola Escreva | Sociological Images