Nesse 13 de junho, começo a sentir um pesar sorridente. Uma vontade de pular da janela desse mundo que anda por caminhos tão tortos que dão ânsia de vômito. Uma alegria ao ver a vontade dos passageiros de tirar-lhe as rodas; ao ouvir os gritos de “não” ao enjôo controlado; ao desejo geral de se encontrar uma direção que ao invés de náusea traga regozijo, satisfação. Falo das manifestações que se alastraram por grandes cidades do meu país. Falo de um 13 de junho significativo pela vontade nacional de fazer mudar. Uma quinta-feira comum em que, em jorros, dissemos “não” à situação de atrocidade. “Não” a medidas controlativas que apenas nos dopam e tentam abafar que tudo a nossa volta roda e nada além do vômito faz sentido. “Não” ao autoritarismo que se esconde por trás de nomes bonitos como “democracia”. Dissemos “não” a essa trilha disparate que não nos leva a lugar algum. Dissemos todos, finalmente, “ não”. À amputação da dignidade. Dizem que os atos não dão em coisa alguma. Hostilizam. Manifestam-se a favor da acomodação e da total submissão à ordem – Ordem, essa, disciplinar e limitadora aos subjugados, para que no fim aconteça o Progresso aos subjugantes. Lastimo, mas não tomo a pílula do conformismo. Vomito, grito e digo “não”. Não admito 20 centavos. Não admito truculência. Não admito que minha cidade – meu país, meu mundo – sejam aos poucos cenário do assassinato da humanidade.
Av. Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro, durante manifestação nesse 13 de junho. Foto de Rodrigo Mariano
domingo, 12 de maio de 2013
Depois da primavera
findam-se as flores.
Para onde elas vão,
cheias de alegria e vivacidade?
Depois da primavera
tudo perde a cor,
se esvai com o vento
E o tempo trata de trazer
verão,
outono,
inverno,
Para a natureza dar vida
às pequenices mais bonitas do ano.
As flores
findas,
A alegria,
A vida,
Tudo que virou verde
e tratou de pousar ao chão com o soprar leve e macio do vento
Tudo reaparece,
reencanta.
E faz-nos esquecer da finitude
das cores,
das vidas,
do tempo
Pois aquilo que dá luz à vida:
materno,
natural,
trata de fazer tudo de forma nobre,
bela,
digna de lágrimas precipitantes.
Depois da primavera,
findam-se as flores.
Mas colhe-se o amor
mais generoso de todos,
aquele que pare a vida,
e aos poucos meses de idade
balbucia,
com dificuldade e brilho nos olhos
"- mãe"
Esse poema foi escrito em homenagem a todas as mães (em especial a Dulce Barata e Cristina Lydia)
Fui comprar um presente de aniversário para o bebê de uma amiga. Entrei na loja, olhei sapatos, blusinhas, babadores, até que fui abordada por uma vendedora que me perguntou simpaticamente: “é menino ou menina?” e depois da resposta apontou para a parte mais pink da loja. Nesse momento, como num estalo, me perguntei: desde quando é assim?
E aí, qual sapatinho é "de menina"e qual
é "de menino"?
E descobri que há um tempo as coisas eram bem diferentes.
Se eu dissesse em uma escola, para aquelas meninas de 5 a
10 anos com arcos, presilhas, sapatos, bolsas e vida cor-de-
rosa, que um dia essa era “cor de menino”, elas não acreditariam. Mas não é que é verdade?
No início do século XX, meninas usavam azul e meninos usavam rosa. Por incrível que pareça, esses 100 anos foram o suficiente para uma inversão cultural drástica. Mas qual era a “justificativa” para as coisas serem invertidas?
Papa (1º na hierarquia católica) nomeando
Cardeal (2º na hierarquia católica)
A cor rosa seria uma versão da cor vermelha mais clara, a grosso modo. E a cor vermelha, na tradição cristã e pictórica, por ter um pigmento bem mais caro que as outras cores, era utilizada para representar pessoas e coisas com grau de importância maior (e é aí que entra nossa linda e querida cultura do patriarcado e do machismo): os homens, os nobres e os representantes da igreja. Nesse último conclave do papa a relação do vermelho com o poder ficou bem clara. Se via na televisão cardeais com seus trajes vermelhos e outros representantes da igreja (com grau de importância um pouco menor) com tons vinho e rosa, que também utilizam o pigmento rubro.
Diziam também que a cor rosa, por sua semelhança com o vermelho, era uma cor mais “forte” representava maior virilidade e ferocidade, características consideradas “masculinas”.
O Kinder Ovo esse ano resolveu dividir
os brindes do chocolate em "Meninos"
e "Meninas". E aí, é sexista?
É engraçado ver que até em coisas tão banais, como a cultura da roupa que os meninos e meninas utilizavam, estava escondida uma cultura muito maior e preponderante, que é a da superioridade masculina versus a apatia e submissão feminina. O traje azul para as meninas, assim como o dos meninos, representava qual seria o seu papel social e como elxs deveriam agir. A cor azul é considerada mais calma e delicada e também era relacionada com o manto da Virgem Maria, representado sempre nessa tonalidade.
Audrey Hepburn, sucesso em 50
Não se sabe ao certo a data em que as coisas começaram a se inverter. Mas acredita-se que foi a partir dos anos 40, e mais cedo, com o final da Primeira Guerra, que as cores foram trocando de gênero. Há quem diga que o azul começou a ser muito utilizado para uniformes de soldados masculinos e que a partir daí ele foi se
“masculinizando”.
Já a cor rosa foi se "afeminando" dos anos 40 para os anos 50, com o surgimento da Barbie em 1951 e começo de utilização em massa do rosa para meninas. Foi nessa época também que surgiu o Think Pink, em uma cena de Hollywood em 1956 do filme “Cinderela em Paris” (“Funny Face” é o título original), com Kay Thompson e Audrey Hepburn.
Também acredita-se que a mudança de sentido da cor aconteceu na Alemanha Nazista, quando homens homossexuais nos campos de concentração tinham que usar um triângulo rosa no uniforme, enquanto os judeus usavam uma estrela amarela de Davi. Pode ter sido também a partir daí que o uso do rosa se tornou pejorativo para os homens e representante de características “afeminadas”.
Há algum tempo assisti ao vídeo abaixo, em que uma menininha questiona aos pais por que meninas têm que comprar brinquedos de princesas e meninos têm que brincar com super-heróis. A criança, indignada, faz uma reflexão que todos nós, principalmente os que já têm filhos, deveríamos fazer: por que simplesmente aceitar os padrões de gênero que estão impregnados na sociedade sem ao menos pensar suas razões e implicações? Por que não meninos usarem rosa e brincarem com princesas e meninas usarem azul e gostarem de super-heróis, sem discriminação? Será que não estamos apenas reproduzindo uma cultura sexista e cisgênera, no simples ato de comprar um “brinquedo de menino” ou menina?
Gostaria de finalizar a postagem com uma propaganda anti-machismo do Governo do Equador, que é fantástica e faz alusão às reflexões que quis levantar aqui.
Quase todo mundo já a viu em algum lugar. Já usou suas tirinhas em aula, já curtiu compartilhamentos do facebook, ou gosta da menininha de 6 anos de algum jeito. O que pouco se sabe é que apesar de ter aparecido pela primeira vez em setembro de 1964, Mafalda nasceu em 1962, inicialmente para uma campanha publicitária dos eletrodomésticos Mansfield. Uma das regras da agência era que o nome do personagem começasse com “M”. A campanha e os produtos da marca nunca chegaram a entrar no mercado, adiando assim a estréia da tirinha.
O cartunista esboça uma família típica: pai trabalhador, mãe dona de casa e filha. Não fosse as preocupações com o mundo em que vive e personalidade contestadora da personagem principal, Mafalda não seria essa tirinha tão usada e admirada hoje, mais de 50 anos depois. E não é à toa que Umberto Eco a definiu como “heroína iracunda que rejeita o mundo assim como ele é [...] reivindicando o seu direito de continuar sendo uma menina que não quer se responsabilizar por um universo adulterado pelos pais”.
Mesmo passando por períodos militares, Mafalda resistiu questionando a ineficácia do governo, a crise econômica e satirizando indiretamente governantes e práticas da Argentina na época. A sorte da personagem é que a censura militar de 1968 a 1976 no país foi mais branda, e quando começou a se tornar rigorosa a tirinha já tinha parado de ser publicada. Se Quino fosse brasileiro, por exemplo, graças ao Ato Institucional nº 5, ela certamente seria censurada.
Chegam a entrar na história personagens um tanto quanto irônicos, como a última personagem inserida nas publicações, “Liberdade”, muito pequenina, filha de esquerdistas e com ideias diferentes dos outros personagens. Até no governo de Arturo Illia, Quino satirizava. Ele deu um animal de estimação à Mafalda que muitos comparavam com o presidente, por sua atuação inexpressiva na economia e política: uma tartaruga que se chamava “Burocracia”. Manolito, filho de comerciante, só pensa em dinheiro e no lucro do armazém de seu pai. Claramente ele ironiza o sistema capitalista e diversas vezes problematiza questões como a inflação e a desigualdade social. Há quem diga, também, que a aversão que Mafalda teria à sopa seria uma metáfora para o autoritarismo militar e foi um dos modos que o cartunista encontrou para mostrar o descontentamento com a ditadura de forma menos direta.
Mafalda ainda questionava outros tipos de liberdade. Fazendo sempre oposição a Susanita, que aderia a uma voz do senso comum, extremamente machista, a protagonista das tiras contestava suas falas e difundia a problemática dos direitos das mulheres bem na época do "bum" feminista. Os questionamentos sobre sua mãe também eram frequentes. Mafalda via a liberdade da mulher como algo fundamental. As décadas de 60 e 70 se destacaram pela descoberta do anticoncepcional, pela luta pelas melhores condições de trabalho e pela acensão do rock e do movimento hippie. A garotinha argentina em diversas tirinhas também demonstrava a euforia da beatlemania de sua geração.
Em junho de 1973, um triste confronto entre facções rivais de peronistas aconteceu na Argentina, com o retorno de Perón após o exílio ao país. Conhecido como Massacre de Ezeiza, o evento deixou aproximadamente 13 mortos e 365 feridos. Segundo Quino, Mafalda não suportaria presenciar tal panorama argentino, e despediu-se das publicações 5 dias depois.
Sou da geração que descobriu a internet. Quando pré-adolescente, todos tinham seu flogão, fotolog, ou mesmo blog. Não podíamos viver sem nossas contas do MSN, do orkut, e mais tarde do twitter e facebook. Ficamos online 26,4 horas por mês*, mais de um dia inteiro conectados com o mundo – seja no computador, notebook, celular ou tablet.
Não conseguimos passar um dia sem entrar no nosso facebook. Seja pra curtir, comentar, compartilhar ou postar alguma coisa: precisamos mostrar algo para o mundo. Algo que diga como somos, no que acreditamos, em como estamos bem. Algo que mostre tudo o que achamos que vale a pena. Queremos ser vistos como pessoas bonitas, inteligentes, interessantes e, sobretudo, muito felizes!
Seja com fotos do instagram, com frases de Caio F. Abreu, com tirinhas do Laerte, queremos mostrar o quão antenados estamos, o quão nossa vida vale a pena, o quão podemos ser úteis e ter opiniões fortes. E ficamos deprimidos se ninguém curte o que estamos falando. Nosso desejo é saber que as pessoas nos viram e sentiram empatia pelo que estamos passando.
Nos mostrar felizes, para nós, é ser feliz. Qual seria o sentido de se sentir bem se ninguém nos vê? “O que aparece é bom, o que é bom aparece”**, e não adianta nada a gente ser inteligente, bonito, espiritualista, bom e interessante, se ninguém vê e concorda com isso. Não adianta nada ter um carro, o celular do momento, o acessório de marca, o objeto de consumo do momento, se ninguém está olhando. Nosso espelho é a reação de quem vê.
Não que essa característica seja própria dos novos tempos. Além da internet, essas afirmações acontecem em lugares públicos, com a reação da família, dos amigos, com os olhares de reprovação ou aprovação das pessoas. Estamos fadados a nos ver nos olhos dos outros. Se perceber é perceber como o exterior nos percebe. Auto-crítica na verdade é crítica de si mesmo a partir do que vemos das reações e normas exteriores. Quando dizemos, todo final de ano, que fizemos uma análise de nossas vidas e depois da virada vamos emagrecer, ser mais responsáveis e abraçar as possibilidades de um novo amor em nossas vidas, falamos pela nossa necessidade de nos tornar seres perfeitos diante da sociedade. “Quero ser magro, responsável e amado porque é assim que todos acham que são as pessoas felizes. É assim que me vendo as pessoas vão aprovar, e até sentir inveja”.
Gostamos de dar inveja. De mostrar que nossas vidas valem a pena. De dizer que não precisamos de nada nem ninguém para sermos felizes – além da fundamental necessidade de mostrar tudo isso. Se antes o importante era ter coisas que nos remetem à felicidade, hoje só o que importa é parecer ser feliz. É parecer culto, intelectual, diferente, ou mesmo parecer bonito, querido por todos, desejado. Mesmo sendo ou tendo, ser e ter não faria sentido se não parecêssemos assim. Por isso a necessidade de postar fotos sorrindo com os amigos, fazer o check-in naquela exposição tão comentada no Centro Cultural, comentar sua posição política a partir de uma notícia de internet... Por isso nos sentimos também obrigados a não fazer parte disso, a não postar nada, a não ter conta do facebook. Precisamos mostrar de alguma forma que não fazemos parte disso, que somos superiores – e que somos felizes assim. Por isso a necessidade, mesmo que pela omissão, de falarmos alguma coisa.
E somos felizes assim. Muito felizes. Proporcionalmente à quantidade de pessoas que viram e curtiram isso.
OBS.: Enquanto escrevi esse texto, deixo bem claro, me desconcentrei muito olhando minha conta do facebook, curtindo fotos de amigos felizes na balada, lendo e comentando notícias políticas. Sou farinha do mesmo saco. Estamos no mesmo barco. Não critico nem culpo essas características, apenas quis problematizar algo que está presente no nosso dia-a-dia.
Um dos pintores de maior nome no Renascimento Italiano, Botticelli chama atenção pelo modo de retratar as mulheres, as santas, a deusas e a ninfas, mostrando o ideal de beleza de sua época.
Retrato de Beleza Ideal (Simonetta Vespucci), 1480
Excêntrico, espanhol, surrealista. Um dos mais famosos artistas dos anos 50, Dalí, ao mesmo tempo que participa da mostra Fantastic Art, Dada and Surrealism (1936) que consagrou o surrealismo, mais tarde é supostamente expulso do grupo, por suas tendências políticas e exibicionismo.
Parisiense, burguês, irônico, impressionista. Degas foi um dos tantos artistas que desistiu da carreira de direito para entrar na Escola de Belas Artes, e se destacava por certa divergência do seu grupo artístico. Da aversão à pintura ao ar livre à conciliação do "velho" e "novo" em sua obra, na primeira mostra de artistas impressionistas, graças a sua temática urbana moderna, recebeu as melhores críticas.
Para Simone de Beauvoir (1908-1986), filósofa feminista, “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. De acordo com a sociologia, esse tipo de identidade é construída gradualmente e tem influências (sociais, familiares, ideológicas, culturais e etc) que são moldadas de acordo com o contexto de época e de lugar em que se insere. O modo de ser, agir e pensar da mulher é criado, portanto, de diferentes formas em cada geração das populações. E a desigualdade de gênero é uma dessas criações sociais históricas.
Vivemos na sociedade brasileira do início do século XXI, com uma cultura abundante e múltipla, típica do quinto país do mundo em área de território. Em menos de 500 anos de formação, tivemos diversas tipificações e identidades de brasileiros, que vão desde caracterizações econômicas até regionais, de costumes e de gênero. Características formadas, estrategicamente ou não, por setores da mídia e culturais, como imprensa, arte e, principalmente, pela propaganda. E como se dá essa formação? Estudamos desde a entrada na educação formal a História da Humanidade através dos acontecimentos que envolveram ação direta do homem. As relações sociais e seus períodos históricos, entretanto, são tratadas com menor importância. Será que esse tratamento secundário é adequado para a formação de uma sociedade mais esclarecida?
Propaganda dos anos 50 - "Mantenha ela em seu lugar"
Jovem, expressionista, apaixonado por mulheres. Egon Schiele, artista austríaco do início do século XX, retratava mulheres de forma tão sensual e impactante que chegou a ser preso acusado de expor material pornográfico a menores de idade.
O Chatas de Atenas estreia hoje uma série que reunirá a cada duas semanas pequenos textos sobre artistas e obras de arte com essa temática que nos é tão comum e crucial: mulheres.
Ninguém reconhecia mais aquela garota. Andava desnorteada pelos corredores da universidade, com o pensamento longe e passos lentos e zigue-zagueantes: nisso não havia nada fora do comum. Mas em seu olhar, ao invés da não-expressão dos dias anteriores, pingava certa característica infantil que fora se perdendo com o crescer das pernas. Via-se sorrirem, seus olhos.
Seus movimentos corporais, antes retos e abruptos, paulatinamente faziam curvas, assim como o mexer de suas sobrancelhas. Todos seus diálogos e conversas casuais eram interrompidos, invariavelmente, por pausas em que olhava para o nada e sorria levemente, quase sem mover os músculos do rosto. Antes concentrada e objetiva, a garota tinha mais dificuldades de formar um pensamento sólido ou tomar posição diante das coisas. O derreter de uma manteiga fora da geladeira.
Se dizia boba - e realmente o era. Tinha o hábito de não falar coisa com coisa, mas nunca com a doçura que adquirira recentemente. Parecia enfeitiçada, conduzindo sua vida de forma mais leve e clara. Flutuava, como o cair de uma pena prestes a encostar no chão.
Certa vez foi conversar com uma de suas confidentes mais próximas, numa inquietação traçante - e ainda assim tão terna:
- Não sei mais quem eu sou.
Não era doença, não era alucinógeno, não era surto psiquiátrico. Todos reconheciam que sofria do maior clichê literário.
Pegou o pacote de papel pardo em
cima da escrivaninha de seu quarto e, cuidadosamente, retirou toda fita que o
envolvia. Tirou seu embrulho, o amassou, pegou o revólver -
Cinco – e assim começaram seus
últimos minutos. Em pé, com aquela Rossi274 na mão, olhava em volta e sabia que
algo estava faltando. Seus pensamentos iam e vinham sempre altos, chegando onde
muitos pássaros não conseguiriam. Produzia telas e não punha títulos; fazia
obras monumentais e não conseguia explicá-las; pintava o cristo redentor de
vermelho e o nebulava com a ausência de algo. Ele não conseguia transmitir suas
idéias de um jeito em particular, que tanto admirava. Aquele homem tinha
problemas com a palavra. Olhando
para o chão manchado de tinta, - Quatro - permaneceu completamente paralisado,
tentando formular dessa vez não mais imagens em sua cabeça, mas frases. Fechou os olhos; nada lhe vinha à mente. Nunca conseguiria formular frases tão bonitas
quanto as que tinha acabado de ler. Nunca conseguiria se expressar oralmente do
jeito que realmente queria. Foi em direção a mesma escrivaninha que tinha pegado
o pacote da arma que, sem largá-la de sua mão, folheou o esplêndido e agora assassino
livro. Cada frase fazia todo o sentido, - Três – cada vírgula se encaixava como
uma luva em cada oração, cada adjetivo era tão sonoro quanto o som do mar em
dia de ressaca; era como ver, para ele, a tela mais simétrica e sobretudo mais
harmônica tanto em cores quanto em formas. Súbita, uma lágrima pingou na quinquagésima
quinta página do livro – seria em vão enxugá-la, agora. Fechou-o,
cuidadosamente. Aquela escrivaninha era desorganizada, mas tinha tudo o que ele
precisava naquele momento. Embaixo de um caderno, - Dois - pegou o bloco de post-it verde e retirou uma folha.
Procurou a caneta mais grossa, mais marcante; achou um hidrocor preto. Ainda
sem largar o revólver da mão escreveu algo, que pela primeira e última vez na
sua vida lhe parecia condizente com seu momento de crise. Colou-o na contracapa
do livro, o segurou firme pela mão esquerda e deu dois passos para trás.
Abaixou e colocou o livro no chão, com a capa virada para baixo e seu bilhete
para cima. Se levantou. Agora tinha apenas a Rossi274, o que fazia sua mão suar
de nervoso - Um – e em parte por causa de
sua empunhadura de borracha. Toda a tinta azul que não tinha saído de suas mãos
e unhas com água e sabão no dia anterior saía agora, de uma vez. Levantou a
arma para checar o número de balas: eram cinco. Daria para, em apenas um aperto
no gatilho, fazer o que queria. Lentamente a levantou mais em direção ao seu
rosto e a encostou três dedos acima de sua orelha direita, sentindo por cima do
cabelo curto o gelado do metal. Olhou pela última vez para o livro – Zero – e
apertou o gatilho.
O bilhete e o livro que tinha
deixado continuaram quase completamente intactos, com apenas três gotas de
sangue que caíram: duas no livro e a outra, a mais cilíndrica e estética, sobre
o ponto final do que havia escrito no post
it: “Palavra.”
Andy Warhol e as representações do americano de sua época*
Vivemos em um século em que a imagem faz parte
significativa de nosso cotidiano. Cartazes, propagandas, folhetos e estampas,
assim como as imagens de computador, da televisão e de outros objetos
eletrônicos, permeiam nosso dia-a-dia de
modo massivo, fazendo com que cada vez mais nossa cultura se baseie na visão. Em
2010, 95,7% da população brasileira tinha acesso a televisão à cores[1] e entre 1999 e
2006, cresceu em 178% o número de municípios com provedor local de Internet[2]. Esses
números demonstram que a geração de 2000 está se formando como, cada vez mais,
a geração do visual.
O que será que muda com essa “eletronização”
das coisas? O que é representado no âmbito visual? Essas representações têm
alguma relação com a sociedade em que vivemos? Nossa maior questão nesse
texto é tentar refletir até que ponto mudanças culturais afetam a sociedade
vigente e como essas novas imagens podem representar o modo de vida de seu
local na sua época. Como os outdoors publicitários representam esse contexto?
De que forma é retratado o indivíduo nessas novas mídias?
Para entender melhor a influência e
integração das imagens urbanas com o cotidiano da população, escolhemos as
obras de um artista para relacioná-las com a sociedade em que vivia.
Selecionamos a sociedade americana da época da arte pop, entre as décadas de 60
e 70, considerando a melhor aptidão de entendimento do leitor, já que toda a
cultura de consumo relacionado à propaganda e à arte desse tempo pode ser
encontrada hoje em dia (mesmo que de forma diferenciada).
Sexo ainda é tabu. Sexo feminino então, nem se fala... Deborah Grandinett, no entanto, trata muito bem do assunto em seu vídeo.
Recomendamos o vídeo a todas as leitoras (e leitores) que admitem saber pouco (e até aos que acham que sabem muito) sobre o sexo feminino.
"Alguns pontos obscuros relacionados ao prazer no sexo para mulheres, discutidos sem rodeios e com muita sinceridade. Por uma liberdade sexual plena :) Vídeo apresentado como o meu trabalho de conclusão de curso em Design Gráfico na Escola de Design da UEMG.
Algo como: "Entendi, se eu não faço sexo com você sou uma vaca puritana, se eu tomo anticoncepcionais eu sou uma vadia, se fico grávida eu sou idiota e se fizer um aborto sou satânica. Viva!"
Era um domingo. Dia em que as construções do centro da cidade ganhavam destaque, sem a fumaça do trânsito, o burburinho dos passos dos pedestres e o barulho de motores de carro de dias chamados úteis. Mas nem todo domingo era inútil assim.
Ana saía do Belas Artes. Ainda atordoada com a quantidade de cores e com a potência de texturas daquele local, a pequena mulher ia em direção à estação de metrô. À sua volta, prédios, calçada, ruas, todos aparentemente solitários, abraçados apenas a seu cinza de todos os dias.
Ela gostava de estar sozinha. A sensação de não ter ninguém te observando ou interagindo com seus pensamentos era não só uma forma de autoconhecimento, mas um descanso da vida de relações. Relações podiam ser tão chatas! As pequenas obrigações, como desejar bom dia, sorrir ao ver algum conhecido, manter contato com os amigos mais próximos, responder à mensagem bonitinha do namorado à altura... Todas elas - por mais que as exercesse muito bem - todas elas cansavam. Sentia prazer confortável em almoçar sozinha, caminhar sem ninguém ao lado e ter apenas a sua companhia numa tarde em seu apartamento.
Ainda assim, era estranho ser a única daquele lugar. Sua mania de tentar bisbilhotar os detalhes aparentes das pessoas a sua volta e formar minibiografias de suas vidas acabava se modificando. Demorou a perceber que a cinelândia também tinha seus personagens permanentes, inclusive aos domingos. Imóveis sob jornais ou embaixo de mantas, eles pareciam tão solidificados quanto os grandes prédios do centro. E eram. Eles sempre estiveram ali. As curtas histórias que formulava, então, passavam a se tornar extensas e mergulhadas em certa criticidade não comuns a suas análises de rua.
Um deles dormia profundamente, cobrindo-se quase por completo - deixando aparentes apenas seus pés descalços marcados pela sujeira das ruas - com uma manta verde quase no mesmo tom de sua mochila de pano: mas com algumas manchas que não se identificava se eram de sangue ou de qualquer outro excremento humano urbanóide. Andando em ritmo lento e com expressão corporal extremamente densa, Ana parecia se arrastar como uma cobra ferida prestes a morrer. Aquele era seu habitat fundamental e, no entanto, ela parecia alheia àquele domingo na cinelândia. Alheia, e ao mesmo tempo tão tocada por ele. Alheia, e apesar disso, transbordando impressões sensíveis àquilo. Alheia e cônjuge daqueles moradores de rua.
A mulher muito branca de cabelos curtos que caminhava no centro da cidade parecia um pesquisador biológico em um bioma desconhecido: atenta a todos os sons, cheiros e ícones daquele deserto urbano. Sua sensibilidade era tanta que num de seus pés, enquanto alternava os passos, notou por um momento embaixo da sapatilha uma moeda. Ao movimentar novamente sua perna, viu que não estava delirando - e se surpreendeu com sua astúcia.
De longe, viu um banco vazio. Achou estranho não estar ocupado por um daqueles personagens permanentes da cinelândia: talvez fosse porque nele batia sol, e fazia muito calor em dezembro. Continuou andando, sabia que para chegar à estação aquele era o caminho mais curto. Observou mais atentamente e viu que havia um objeto azul sob o banco. Era um livro. "Era um livro?!" Só podia ser um livro. Olhou em volta na esperança de achar quem o havia esquecido ali, solitário, fechado, camuflado - mesmo sendo uma das únicas coisas com cor daquele metro quadrado. Nada encontrou. Hesitou, mas assim que chegou no banco pegou o livro para ver do que se tratava. Era poesia! Ana nunca tinha gostado de poesia. Já estava o colocando novamente onde o encontrou, quando teve vontade de abrí-lo. Permaneceu alguns milésimos de segundo o segurando a poucos centímetros do banco, fechado, quando finalmente separou com os dedos a capa da primeira página. Nela estava uma dedicatória, de caneta também azul: "Com amor", leu em voz alta. "Com amor"... tentava entender a assinatura abaixo da inscrição. "Com amor"... "Quem?!" A letra fina, rápida, larga, lembrava a caligrafia de alguém próximo, não sabia quem - para Ana essa sensação era constante. Talvez lembrasse em algum outro domingo qualquer. Ficou alguns segundos tentando decodificar aquela assinatura que mais parecia um desenho abstrato. Era estética. Linhas curvas, retas, atravessando umas às outras, formando uma figura com harmonia visual. Seu rosto redondo aos poucos foi tomado por uma expressão de dúvida típica de quem tinha traços finos como os seus. As sobrancelhas em alturas diferentes, os lábios finos tendendo para um lado, o nariz levemente tensionado. Pouco depois, gradualmente via-se seu rosto mudar de configuração. O nariz aos poucos relaxava, os lábios se entreabriram, as sobrancelhas se alinharam e foram postas de modo curvilíneo. Ana lembrou-se de seu avô. Certa vez lhe disse que um dia havia de gostar de poesia, e ficou com aquilo na cabeça por alguns dias, esquecendo em seguida.
Descendo as escadas rolantes do metrô, ainda em êxtase, Ana recebeu uma mensagem no celular perguntando como tinha sido seu dia. Com medo de não conseguir dizer o que realmente sentia naquele momento, simplesmente desligou o celular e seguiu caminho. De um momento para outro aquela pequena mulher de cabelo bagunçado amava aquele livro e sabia que, mesmo que nunca fosse lido atentamente, permaneceria em sua mochila de pano onde quer que fosse.
Via-se de longe aquela mulher muito branca com pouco mais de um metro e sessenta de mochila de pano e sapatilha preta. Tinha rosto redondo, traços finos e seu cabelo preto e curto levemente bagunçado. Do ônibus que acabara de descer, ouvia-se o som das grandes rodas nos paralelepípedos da rua e via-se apenas o rastro de fumaça preta deixado há segundos no ambiente.
Andava desnorteada em direção ao hotel que havia reservado. Em seu olhar, percebia-se claramente a inquietação típica de quem acabara de receber o resultado que tinha – e que estava em sua bolsa verde, dentro de um livro de poesias. Sentia o gelado de seus braços e pés, onde sentia também os vãos e calombos do chão, que faziam massagem em seu calcanhar. Enquanto andava, ouvia o ir e vir dos carros em alta velocidade sob os paralelepípedos, assim como o quádruplo som do galopar dos cavalos. Esses barulhos a acalmavam e a faziam esquecer, por uns instantes, da folha de papel dentro do livro em sua bolsa. Queria voltar dois meses no tempo e evitar que aquele exame desse positivo. Agora era tarde.
Continuava andando, dessa vez não mais nos paralelepípedos da rua, mas na calçada com pedras maiores e menos geladas. Andar fazia barulho áspero: o atrito das pedras com as sapatilhas moleca sujas de terra. Enquanto olhava as árvores e vagava o pensamento, pegava com a mão direita folhas de erva daninha nos muros das residências, sentia poeira nelas repousada e as quebrava com os dedos, o que expelia som crocante e curiosamente prazeroso.
Entrando no hotel, a pequena mulher de resultado positivo se encolheu de frio. Com teto e paredes altas, todo e qualquer movimento ecoava em som mais alto, o que fazia com que percebesse todo movimento de seu casaco de linho ao cruzar os braços para se esquentar. Cada passo em direção à recepção era multiplicado, o que dava a impressão de sala cheia, quando só tinha ela e a recepcionista. Pegou sua chave e subiu as escadas de madeira antiga que rangiam em som quase harmônico em direção ao seu quarto.
Ele tinha duas camas já com cobertores de lã em cima, teto baixo, aproximadamente dois metros e trinta, piso de pedra sabão e televisão em apoio na parede - era uma suíte. Foi em direção ao banho: era uma das coisas que a relaxava. Ao tirar os sapatos, sentiu o piso exageradamente gelado em seus pés e apoiou-se na parede, que também estava muito fria, para tirar as calças. Ficando completamente nua, ligou com rapidez o chuveiro quente, que demorou cerca de dois segundos para esquentar por completo. Foi só sentir o calor molhado em suas costas que ela ficou bem. Fechou os olhos.
Sentia apenas a água no corpo e ouvia seu som, tanto escorrendo por sua pele, quanto indo direto ao chão do boxe ou respingando na porta de vidro. O resultado do exame lhe vinha a cabeça a todo tempo, e ela sabia que tinha que tomar uma decisão rápida sobre sua e outra vida o quanto antes. Pensava nos seus próximos sete meses, aflita. Passeava com a palma da mão por seu corpo inteiro, o acariciando; e foi nesse exato momento que percebeu algo dentro de si. Sentiu nela o que havia imaginado apenas quando criança. Deu-se conta da vida. Ficou paralisada de olhos fechados durante exatamente nove segundos, ouvindo o som do chuveiro, sentindo o gelado de seus pés e quente de suas costas e pensando naquela sensação. No nono segundo fechou a torneira, saiu do banheiro, botou seu pijama, se encolheu no cobertor, e sorriu. Ela teria aquela criança. Caiu no sono.