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domingo, 9 de março de 2014

Comemorar o que?


Nesse dia Internacional da Mulher os motivos para comemorar parecem pequenos diante de tantas mulheres que nesse instante estão sendo violentadas, oprimidas, diminuídas, mutiladas, que tem suas vidas roubadas e destruídas. 

Em nome de que? De regras, modo de agir, padrões que vem sendo repetidos desde sempre. Mas quem disse que esse modelo de masculinidade ligado à violência, autoridade, controle e opressão é o certo? Quem disse que todo mundo tem que seguir? 

Para as mulheres, pensem um pouco sobre como nós disseminamos as práticas que se voltam justamente contra nós. E para os homens, exercite a arte de ver diferente, você pode não violentar uma mulher fisicamente, mas acredite, muitas vezes a violência não é física. Pense sobre o que diz, o que faz, como cobra, como ri, como reproduz esse discurso. 

Não tenho o que comemorar, não quero flores, não quero cuidados de beleza, não quero ficar mais bonita, não quero músicas, eu quero um mundo em que meninas possam crescer sem medo de ser mulher, eu quero que ex-maridos deixem de assassinar ex-esposas porque o relacionamento acabou; eu quero que namorados não controlem a roupa da namorada, dizendo que o corpo dela é dele; eu quero que nenhuma mulher ouça insinuações de que pra conseguir algo ela tem que seduzir, porque a competência não basta; eu quero que mulheres tenham o mesmo salário que homens por exercer o mesmo trabalho; eu quero que todas as meninas do mundo tenham acesso à educação; eu quero que nenhuma garota escute que algo "não é coisa de mulher";
eu quero que essa história de "coisas para meninos e coisas para meninas" vá para o espaço; eu quero que as mulheres não sejam violentadas e essa violência seja justificada pela roupa que estavam usando; eu quero que a dicotomia "santa x puta" também vá para o espaço, eu quero que as mulheres possam ser exatamente o que são e seu caráter não seja associado ao corpo; eu quero tanta coisa, só não quero comemorar um dia de luta que foi transformado em comércio, eu quero lembrar de todas nós, Liliths, Pagus, Nísias, Simones, nós que nos negamos a aceitar. Isso eu quero sempre.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Onde você tem guardado seu feminismo?

É preciso bancar nossas escolhas, enquanto mulher, ser humano, algo que existe. É preciso assumir nossas vontades e não esconder, não calar. É preciso expor nossa fé no que há de mudar. Quando o Chatas de Atenas nasceu, nem todas nos declarávamos feministas, éramos seis, quase todas adentrando esse mundo de ativismo, posicionamento e declaração. Hoje, nosso blog é abertamente feminista. Sete mulheres, que escolheram pela igualdade de gênero, pelo respeito e acima de tudo, pela mudança.

Há algum tempo atrás uma mocinha me procurou pelo facebook, conversamos sobre feminismo, o blog e o que pensamos do mundo, ela disse que o Chatas é inspiração.
Pra coroar a conversa disse numa timidez tão curiosa "eu acho que sou meio feminista".

Na hora tentei ser sutil "se você conhecer mais vai ver que é feminista por inteiro". Mas não prolonguei o tópico. Deixei para lá.
Nunca mais falei com a mocinha. Os dias passaram. O Chatas continuou sem postagem.

Então hoje eu estava cá com meus botões e poxa, Dilma sancionou a PLC 3/2013, que trata do atendimento à vítimas de violência sexual no SUS. E há poucos dias aconteceu a Marcha das Vadias do Rio, que ganhou muita atenção devido à perfomance do Coletivo Coiote (aquele mesmo, que quebrou as imagens de santas). E nesse instante abri um site local de notícias e lá estava "Mulher é morta pelo marido".

E isso tudo suscitou uma dúvida: onde tenho guardado meu feminismo?
Você pode estar se perguntando: o que tem a ver essas notícias com o feminismo dela? 
Caro leitor, te afirmo, TUDO. 

Descobrir-se, ensinar-se feminista é um processo, exercitar requer atenção e acima de tudo, coragem. Passamos toda uma vida sendo moldadxs por esta sociedade patriarcal, está na essência de nossa educação a dicotomia de gêneros, os modelos inalcançáveis de "homem" e "mulher" perfeitos, as regras de comportamento e conduta que não são simplesmente para "organização", mas que fomentam toda uma estrutura de dominação.

E vivendo neste planeta, neste país, na minha cidade, convivendo com as pessoas que convivo, percebo que por vezes, eu finjo que esqueço disso tudo e calo meu feminismo, deixo ele quietinho, pra não chatear, pra não criar polêmica. Mas que inferno! É justamente isso que eu devo fazer! 

Meu feminismo tem tudo a ver com a lei que Dilma sancionou, porque, apesar do corriqueiro discurso de que o feminismo não tem mais "o que fazer", empreitadas políticas contra a violência sexual e por um atendimento de qualidade às vítimas, são vitórias que tiveram o apoio majoritariamente feminista. 


O episódio da Marcha das Vadias do Rio, também tem muito a ver comigo, ainda que eu esteja a quilômetros. Por ser feminista muitas pessoas próximas questionaram meu posicionamento, algumas falaram para mim o que queriam ter falado para o casal da performance. Achei isso interessantíssimo. Eu visto o manto do feminismo, para o bem e para o mal. Coisas assim, que a mídia e a grande massa avistam e vomitam logo sua sentença, ficam sempre marcadas. Foi infeliz o acontecido, não concordo, não gostaria de presenciar e em hipótese alguma defenderia algo assim, mas passou. Foi. Aconteceu. E alguns minutos e duas não podem caracterizar uma Marcha de horas, com centenas. 

Daí eu me pergunto, ninguém se choca com a manchete de mais um assassinato cometido contra uma mulher, não é? Era só mais uma Maria qualquer, casada com um monstro... Ela deve ter provocado mesmo. E isso também tem a ver com meu feminismo. 

Hoje eu não brigo pelas vias "oficiais", minha chatice é privada. Eu falo sobre feminismo com quem quiser me escutar, não obrigo absolutamente ninguém. Feminismo pra mim é cultura (que enquanto prática é política também), não acredito que a solução é o Estado, por exemplo, tentar acabar com o machismo ou com a estrutura patriarcal. Funcionaria? Acho que não. As leis, de cima para baixo, ainda mais no Brasil, com uma história de cultura política tão peculiar, geralmente são "adequadas" à realidade. E o Estado é alguém, mesmo enquanto instituição, são indivíduos, com poder de agenda e veto, mais poder que os que formam a sociedade civil. 

Desenrolando meu pensamento: meu feminismo é trabalho de formiguinha. Organizadxs e politizadxs podemos levar demandas ao legislativo, pressionar o executivo e o judiciário. Individualmente podemos falar e falar e falar, e agir também, prestando atenção no que dizemos e como agimos com as pessoas. 

Você pode impedir um estupro, sabia? Já conversou com seus amigos homens sobre o fato de que sexo sem consentimento (ainda mais quando a mulher estiver bêbada) é estupro e que tem punição? Já conversou com suas amigas que julgar uma mulher pelo tamanho das roupas dela é cruel e tão preconceituoso quanto não gostar de pessoas de óculos? Que "promiscuidade" pode ser na verdade preconceito seu e que mulheres sendo assassinadas por companheiros não são crimes "passionais", mas sim uma questão de misoginia. Que não dói respeitar as pessoas pelo que elas são, ainda mais se não fazem mal a ninguém sendo assim! Que não existe um alma que corresponda perfeitamente ao padrão de "homem" e "mulher", então por que raios querer que as pessoas se modifiquem e machuquem tentando ser algo que não existe?

E eu, eu devia ter falado para aquela mocinha que ela não tenha medo de ser feminista por inteiro. Que ao se declarar assim ela vai levar nas costas todo o preconceito e suposições por vezes erradas das pessoas. Que ela vai ver nesse mar confuso que é a internet muitas farpas dolorosas, mas também vai encontrar outrxs que acreditam num futuro de mais respeito, mais amor ao próximo, mesmo com diferenças enormes entre si. 

Então, cara mocinha, se você ler isso aqui, saiba: o feminismo que brota em você tem um dever, um laço, com o feminismo de outras pessoas. É por essas pessoas que devemos nos declarar, para que elas também levantem a mão dizendo "você não está sozinhx". Eu pretendo, deste instante em diante, não guardar meu feminismo, não calar. Chatear cada vez mais. Me respeitar enquanto mulher e reclamar respeito. Eu devo isso a vocês, a todxs nós.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Clitóris, o prazer proibido ~ Documentário

Chatx queridx, uma amiga indicou esse documentário e depois de assistir vos indico. O vídeo faz um resgate histórico dos estudos da anatomia feminina, especificamente do clitóris, apresenta resultados de pesquisas médicas a respeito e acima de tudo, busca informar, fazer pensar. Oras, o clitóris tem como única função o prazer, indo de encontro com toda a concepção historicamente patriarcal e religiosa de que sexo existe apenas para a reprodução, de que instintos sexuais são somente para perpetuação da espécie. 
Interessantíssimo, analisa a relação dele com o orgasmo e como fisiologicamente falando o sexo é mais profundo que apenas instinto. Além de abordar temas delicados, como a mutilação genital e "adequação estética". Vale a pena assistir! 




sábado, 16 de março de 2013

"Acho a liberdade mais importante que o pão"*

Fim do recreio, o mundaréu de alunos retorna, pródigos como só estudantes sabem ser. Eu nos treze anos, afundada no livro da vez. No aniversário recente havia ganho da minha madrinha mais um modo de deslizar pelas horas incovenientes. Lia com fome e sequer percebi o professor invadir a algazarra da turma. "Mulheres que mudaram o mundo, livro interessante... e por acaso você acha que alguma mulher mudou o mundo? Me dá um exemplo só, que seja palpável". - Ele me desafiou com um sorriso nos olhos, não fazia por mal, queria instigar, a filosofia tinha mania de aulas assim, perguntando. - "Ué, a gente pode começar pela sua mãe, sem ela não haveria sequer mundo pra você". 

Eu acredito no que respondi. E ainda hoje olho pra esse livro com carinho; Marie, Gabriela, Isadora e Simone se enraizaram nas minhas ideias, só escrevo sobre mulheres e sob o signo delas. Minha genealogia de alma e sangue é marcada por elas, das melhores e piores maneiras possíveis e não houve felicidade maior quando lá pelos quinze percebi que abandonava as semelhanças da infância com meu pai e ganhava os tons e as maçãs do rosto de minha mãe. 

Combinamos as chatas de falar sobre mulheres, uma espécie de coluna sobre as que nos inspiram, emocionam, que nos tornam mulher. Venho humildemente declarar minha admiração a Aung San Suu Kyi, uma senhora de olhar longilíneo, que me parece uma força da natureza, pelas beiradas se firma e põe a baixo o mundo com apenas um sopro.



Suu Kyi passou quinze anos em prisão domiciliar, ganhou o Nobel da Paz em 1991 e lidera o partido de oposição (Liga Nacional pela Democracia - LDN) ao regime ditatorial e militar instalado em seu país desde 1962. Entender sua história é aprender sobre a história da própria Birmânia (atualmente Myanmar), com o cuidado de não simplificar a luta  de milhares em apenas uma pessoa, é claro.

Em 1947, Aung San, pai de Suu Kyi e um dos líderes da independência birmanesa, foi assassinado.  Ele morreu sem ver a colônia se tornar livre do Reino Unido e sua filha cresceu para ver a Birmânia ser massacrada novamente, mas quem sabe, viverá ainda tempo suficiente para ver os frutos de sua resistência pela democracia.   A mãe, Khin Kyi,  foi nomeada embaixadora na Índia em 1960, e para lá seguiu toda a família que se resumia a elas duas e Aung San Oo, irmão mais velho de Suu (o outro irmão, Aung San Lin, faleceu aos oito anos). Em 64 Suu graduou-se em Ciência Política na Lady Shri Ram College, em Nova Délhi. E seguiu para Oxford, na Inglaterra, onde continuou os estudos na St Hugh's College, graduando-se em Filosofia, Ciência Política e Economia em 1969. 

Terminada a faculdade, morou em Nova Iorque, trabalhando na ONU por três anos. Em 71 casou-se com Michael Aris, estudioso da cultura tibetana e que já havia vivido em Butão (para quem não sabe, um país bem pequenininho embaixo da China, mas fan-tás-ti-co). Em 72 nasceu seu primeiro filho e em 77 o segundo, e apesar da história  política da família, Aung San Suu Kyi era uma mulher bem convencional. Foram mais de quinze anos de vida "normal" e ainda que ela soubesse da própria importância como herdeira política do pai em seu país, levava uma vida estável e tranquila longe da Birmânia. 



Aqui cabe questionar um pouco sobre as escolhas. Por que escolher o país ao invés da família? Por que tomar para si uma responsabilidade que não era obrigatoriamente sua? Por que não seguir longe de tantos  conflitos políticos? Com todas as conquistas feministas no último século e as possibilidades hoje de ser mais que mãe e esposa, enfrentamos diariamente dúvidas parecidas (geralmente não na proporção de Suu, é claro) e isso é perfeitamente aceitável. Mulheres que optam por ser mães e ter uma carreira profissional arcam com todo o estresse e dificuldades em ter jornadas duplas, triplas, por aí vai... Mas existem também as que decidem ser mãe e esposa, donas de casa. E as que escolhem casar com a profissão e não ter filhos. Essas duas últimas são as mais criticadas, creio eu, como se suas escolhas as limitassem a não ser "mulher de verdade". Isso me parece o cúmulo do autoritarismo. Quem raios pode definir o que é ser mulher de verdade? Cada qual é juiz de si mesmo e deve arcar com as próprias decisões. Sanções sociais acontecerão sempre, independente do caminho que você tomar, mas não podemos nunca esquecer que ao escolher, tomamos as rédeas de nossas próprias vidas. Além de ser possível transformar a cultura de coercitividade e patrulhamento da vida alheia, dá pra ensinar aos outros sobre respeitar escolhas (pelo menos tenho a esperança que isso seja possível).

Mas voltando a história de Suu. Em 88 sua mãe teve um AVC e ela voltou à Birmânia. Fervilhava uma revolta contra a ditadura militar (que estava lá desde 62, pessoal, 62!). Na Revolta 8888 (porque o maior protesto foi dia 8-8-1988) foram mortos mais de 5 mil civis pelo governo liderado por Ne Win. Como estava no hospital cuidando da mãe ela pode ter contato com muitos dos sobreviventes e envolveu-se de imediato com o movimento pró-democracia. Em Setembro foi fundado o partido do qual ela seria líder, a Liga Nacional pela Democracia. Suu viajou pelo país pregando a desobediência civil e em dezembro sua mãe veio a falecer. E em 89 Suu Kyi é presa pela primeira vez, ficando encarcerada na residência que fora da família para que não se candidatasse às eleições convocadas pelo novo governo militar. A LND teve vitória de 81% dos cargos nas eleições de 1990, mas o sob a ditatura das forças armadas o resultado não foi reconhecido. 

O marido de Suu, Michael Aris começa ainda em 89 um movimento de tornar público internacionalmente o que se passava na Birmânia, a prisão de sua esposa e os horrores da ditadura. A resistência civil e pacífica realizada por Suu juntamente com os esforços de Michael levaram-na a ser laureada com o Nobel da Paz em 91. O movimento por sua libertação cresce, ela se recusa a abandonar o país porque sabe que não lhe seria permitido retornar. Até 95 foi permitido a Aris visitá-la (ao todo cinco vezes), ainda nesse ano ela é solta, mas por pouco tempo e a proibição de visitas torna-se mais forte. Em 99 Michael veio a falecer de câncer sem se despedir da esposa, ele mesmo pediu que ela permanecessem na Birmânia e não desistisse de sua caminhada pela liberdade do país. Em entrevista anos depois Suu falou de como aquele momento foi crucial, mas que não lhe restavam dúvidas do que era o certo a se fazer.

Foram mais de 15 anos de prisão domiciliar, mas em 13 de Dezembro de 2010 Aung Sang Suu Kyi era livre novamente. Aquele 20 de Julho de 1989 estava longe, o corpo já não era mais o mesmo,  mas a alma estava intacta, inquebrantável. 

A partir de 2007 o Conselho de Segurança da ONU começou a considerar os crimes contra os direitos humanos em Myanmar um problema de paz para a região, sendo possível pressionar mais ainda o governo militar, que hoje ensaia uma possível democratização, mas é tudo muito incerto. Em 1° de Abril de 2012 foi eleita deputada pela LND. E continua sua luta acima de tudo pela democracia, além da solução dos conflitos étnicos e sociais do país. Conhecida pelos discursos arrebatadores, teve muitas falas divulgadas e uma de suas frases mais famosas é sobre o medo: 

"Não é o poder que corrompe, mas o medo. O temor de perder o poder corrompe aqueles que o exercem, e o medo do açoite do poder corrompe aqueles que estão sujeitos a ele".

Em 2011 foi lançado o filme "The Lady", do diretor Luc Besson, relato que apesar de focar muito na relação de Suu e Michael (ao meu ver, pelo menos), leva às telas uma história emocionante e inspiradora. Aqui o link para download e a seguir, o trailer: 



E esse é um documentário (só achei em inglês) que conta maiores detalhes, principalmente sobre a libertação de Suu em 2010 e a pressão internacional, além de trazer momentos especiais, como visitas do filho:

    Prêmios e homenagens: 
    • Prêmio Raft (1990)
    • Prêmio Nobel da Paz de 1991
    • Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento (1990)
    • Prêmio Jawaharlal Nehru para a Compreensão Internacional, concedido pelo governo da Índia (1992)
    • Prêmio Internacional Simón Bolívar, do governo da Venezuela (1992)
    • Cidadania honorária do Canadá.
    • Medalha Wallenberg (2011)
    • Canção "Walk On", do U2 em 2000.
    • Canção "Unplayed Piano", de Damien Rice e Lisa Hannigan em 2005.
    * A frase "Acho a liberdade mais importante que o pão" é de Nelson Rodrigues.

    segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

    81 anos de voto feminino no Brasil

    Em 24 de Fevereiro de 1932 o decreto 21.076 do Código Eleitoral Provisório foi aprovado, assegurando o voto feminino, com algumas restrições (apenas casadas ou viúvas e solteiras que tivessem renda própria), mas fruto de uma luta iniciada ainda no Império. Em 1934 tornou-se facultativo para todas as mulheres e em 46 a obrigatoriedade do voto foi estendida. Contamos em 2013 então 81 anos dessa conquista.

    Ainda no Império, com o movimento abolicionista e toda a efervescência política, questionava-se o sufrágio feminino. Com a Proclamação da República e a nova Constituição o debate cresceu, e por fim, não se aprovou, mas também não se proibiu, abrindo brechas para diferentes interpretações. De 1919 a 1928 tramitou o Projeto de Lei do  senador paraense Justo Chermont, que propunha o voto para mulheres maiores de 21 anos. Em 1927 Celina Guimarães Viana se tornou a primeira eleitora do Brasil, em Mossoró, no RN. Em 29, Alzira Soriano de Souza foi eleita a primeira prefeita, em Lages, também no RN, devido as brechas da Constituição Republicana de 1891.

    Em 1919 Bertha Lutz voltou ao Brasil recém-graduada da Universidade Sorbonne, e fundou a Liga para a  Emancipação Intelectual da Mulher. O movimento tomou força e em 22, com a participação de Bertha na 1° Conferência Pan-Americana de Mulheres, tornou-se Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, FBPF. A principal reivindicação era o sufrágio feminino, para que a partir daí as mulheres adentrassem espaços tradicionalmente masculinos e pudessem alçar voos mais altos. Como a própria Bertha  colocava que "o sufrágio feminino não é um fim em si mesmo, mas sim um instrumento a ser usado para melhorar a condição das mulheres". 

    Em 1932, o sufrágio foi estendido às mulheres no Código Eleitoral Provisório. E  Bertha e Nathércia Silveira foram as representantes na Comissão de Elaboração do Ante-Projeto à Constituição de 1934, a FBPF esteve presente em todo o processo, para garantir que não houvesse retrocesso. Em 1936 Bertha, que era suplente, assumiu o cargo de deputada federal. 

    Muitas são as críticas quanto ao comportamento das feministas do começo do século passado, que ao reivindicar apenas o voto e aliar-se a grupos que historicamente as oprimiam, portar-se de maneira moderada e tendo ações que beneficiavam em primeira instância apenas mulheres já privilegiadas, contribuíram para a manutenção do status quo, legitimando uma nova ordem burguesa.

    Entretanto, tais argumentos apresentam um anacronismo estupendo. Como coloca Rachel Sohiet "a utilização deste recurso revela uma das táticas próprias a sujeitos submetidos a relações desiguais de poder. As feministas com Bertha Lutz à frente, valeram-se de uma tática que mobilizou para os seus próprios fins uma representação imposta - aceita, mas desviada contra a ordem que a produziu". Elas não estavam mantendo o statos quo, estavam modificando-o, com os instrumentos que possuíam e da maneira mais inteligente possível. Isso é admirável.

    Revoluções, subversões totais da ordem, historicamente não terminam bem. Acredito ser um método mais inteligente utilizar-se de reformas. As duas forças que movem o desenvolvimento humano são as de conservação e modificação, apenas o equilíbrio entre as duas possibilita estabilidade e progresso simultaneamente. Por isso reconheço que sem Bertha, Nathércia e todas as mulheres da FBPF e das que apenas apoiavam o movimento na surdina, hoje eu sequer cogitaria falar sobre política. Foram elas que deram os primeiros passos para que pudéssemos reivindicar outras tantas coisas ao longo desse século. Foram elas, dentro de suas possibilidades, que abriram caminho lentamente para que hoje pudéssemos correr nessa estrada.


    O voto, na democracia moderna, é o instrumento pelo qual os cidadãos delegam poder de decisão e representatividade aos seus líderes. É nossa moeda de troca (e não tô falando de compra de votos, por favor, né), por ele temos como pressionar os políticos para que nossas pautas sejam ouvidas e reivindicadas. Sem o voto feminino questões relativas às mulheres nunca teriam chegado ao centro das discussões e se tornado importantes no desenvolvimento do país. Sem o voto as mulheres nunca teriam adentrado esse espaço tradicionalmente masculino, desbravando preconceitos e quebrando tabus. Sem ele, ainda estaríamos sob tutela de nossos pais, irmãos e maridos. Por isso, um muito obrigada a essas mulheres que há mais de 81 anos atrás lutaram por um direito tão básico ao cidadão moderno. Um muito obrigada.


    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    SOIHET, Rachel. Bertha Lutz e a Ascensão Social da Mulher. Niterói: Mestrado em História. Departamento de História. ICHF, UFF

    sábado, 23 de fevereiro de 2013

    No carnaval pode, e no resto do ano, por que não?

    O carnaval, tudo pode e é bonito. Nudez é arte e sexo é diversão, a alegria regada ao álcool festeja a vida. Carnaval é tempo de extrapolar, exagerar, largar a rotina e cair em pelo menos uma semana de folia. E na quarta-feira de cinzas se percebe o ar mais pesado, as ruas imundas, os bêbados vomitando ressaca. Na quinta-feira tudo volta ao “normal”, os homens vestem roupas de homem e as mulheres cobrem o que antes mostravam com prazer. Os “mais soltinhos” voltam pro armário e o amor de carnaval é esquecido. Hipocrisia, incoerência? Para a Antropologia isso tudo pode ser interpretado e conhecido. 

    Roberto DaMatta em “Carnavais, malandros e heróis” analisa os aspecto simbólico da cultura brasileira. Publicado em 1979 o livro tornou-se clássico da Antropologia. Na primeira parte – “Carnavais, paradas e procissões” – ele revisita teóricos que trabalham o conceito de ritual, inovando ao definir que o ritual e a vida cotidiana são feitos da mesma matéria, símbolos, signos e regras, sendo ambos discursos, mas que se diferenciam por certos mecanismos de intensidade, que dão o tom da mensagem.

    Porque tudo é uma questão de comunicação, cada ação é uma fala e algumas áreas da Antropologia tentam desvendar essa gramática. Para DaMatta o carnaval é um ritual de inversão, quando se mostra tudo que é marginal na sociedade, são os dias nos quais o pecado se permite. Caracterizado pela informalidade, tendo por palco a rua, descentralizado. Mas é, acima de tudo, um evento fora da rotina e previsto, ou seja, ainda que subversivo, ele tem começo e fim. É uma suspensão temporária das regras.


    E se o carnaval suspende a hierarquia, a parada militar (1979, ditadura, militares no comando do Estado...) seria um ritual de reforço das hierarquias. Formal, com local definido e organizado, o público que passivamente assiste o desfile dos militares armados, reforçando que detém o uso da força e em honra aos líderes da instituição mais poderosa do país (na época, ainda bem). Os dois rituais seriam dramatizações da hierarquia e da licenciosidade, discursos diferentes sobre uma mesma sociedade, tão diferentes, mas oriundos da mesma realidade. 


    Apenas como estudante de Ciências Sociais não tenho bagagem teórica suficiente para analisar e desenvolver qual seria o ritual de reforço que temos hoje, ou até se o temos, mas é muito claro que DaMatta continua atual. Apesar dos avanços, como grupos que lutam contra a homofobia e o machismo, eventos como a Parada do Orgulho LGBT e a Marcha das Vadias, e o fato de não serem mais tabus inquestionáveis; é preciso lembrar sempre de o quanto o carnaval ainda é o momento de subversão e no resto do ano se volta ao que é considerado "normal". Oras, devia ser normal ser o que se é, sem medo de retaliações, demonstrar afeto em público, vestir a roupa que se tem vontade, isso deveria ser liberdade e só.


    Os memes feitos pela Mariana Bertoche, postados na fan page do Chatas sobre Carnaval  tiveram uma repercussão imensa, mas muita gente entendeu algo completamente ao contrário do que queríamos dizer. Acontece. Mas que fique claro, a crítica não é ao carnaval, cada um curte a folia como quiser. Nossa crítica é que: se podemos respeitar o outro no carnaval, por que não no ano inteiro? Sabe, tentar prolongar esse espírito de celebração do amor seria algo muito bonito de se ver e eu tenho esperança, principalmente de que as crianças aprendam cada vez mais como amar não deve responder a modelo nenhum e de que o tamanho de uma roupa não justifica violência, nunca. Tendo esperança nisso fica mais fácil continuar, e falar, com som e fúria, sempre. 


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    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    DAMATTA, Roberto, 1980, Carnavais, Malandros e Heróis. Rio de Janeiro, Zahar.

    sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

    Guest Post: De Lira


    A garotinha fazia quadros para ver se a chuva cabia na pintura, pra segurar o sabor das coisas. Talvez a ideia grudasse na cor, talvez o vento tropeçasse pelo caminho e parasse pra respirar ali. Talvez todas as criaturas impossíveis fossem lanchar junto dela. Talvez, então, suas mãos pudessem correr tão soltas quanto havia as pintado pra ser. Mas apenas seus olhos tinham permissão, secreta, para furar as formas. Mastigando perfumes e apertando ponteiros, ela se conhecia: Lira, colecionadora de fatos.

    Um rio correu entre ela e a senhora comprida do trem.

    Planos espumando na xícara, ardendo o café. O penteado prendia fios brancos e pretos em um coque mal afrouxado. A ventania carregava a fumaça da boca e corria com os pensamentos janela afora.  Nada de sentar-se e assoviar uma canção. O tempo de soprar e escrever desenhos azuis não cresceria nela de novo. Mergulhou o cigarro na xícara cheia. Os planos na verdade queimavam e morriam na mesinha à sua frente.

    Deslizou dali, azul afora, para sua figura magra adolescendo ao sol.

    Uma voz aguda escapava do rádio, domando a tarde. Pequenas rebeliões comiam o ar em volta da moça. Biquíni amarelo e cabelos deitados na grama, o braço esquerdo afundando na piscina. E o rapaz lhe agradando com a boca, lá embaixo. Lira enxergava um céu trêmulo de festa em seu corpo. Apertava o biquíni com a mão encharcada, corando e aprendendo o arrepio. Com a mesma saliva, ele encontrou sua boca. Desembaraçavam as vergonhas e os receios, despertos e esclarecidos. Atravessando a tarde, a mesma voz ainda soava, vívida e agreste, libertando toda muda de flor que não conseguisse nascer para além de si, todo verbo enterrado na boca.

    Afundou no gelado, de volta à infância laranjada do quarto.

    Lobos giravam num voo pausado: a tela mais recente secava debaixo do ventilador. Lira romantizava sobre alguma angústia, choramingando no caderninho, ainda lambida de tinta, aqui e ali.  Triste e sombria, desaguava em cima dos papéis e pincéis partidos. Os gritos ainda a buscavam, tentando pingar intolerância por algum caminho ou buraco sagrado. De teimosia, Iluminou mariposas e liberdades pela parede mesmo, fazendo fogueira pra afastar as bestas. Enquanto o corpo virava quadro renascentista no espelho, a mente se arreganhava. Mais quente, mais espaçosa. Estava sentenciado em cada palavra desenhada sua: faria da ruptura uma sina. Cresceria, engolindo todas essas prisões.

    As pernas se esticaram, nuas, no molhado e imprimiram bem no jornal.

    Grave e desbotada, a senhora no trem não lia nem três parágrafos sem que a vista doesse ou a paciência se fatigasse de qualquer informação avessa às convenções. Já conhecia o suficiente de tudo, da falta de gentileza do tempo e das ordens do mundo. A ferrovia corria debaixo dos vagões, a janela deslizava na paisagem, as horas nunca andavam pra trás. O horror traz certezas. Naquela mente guardada entre roupas, doutrinas e códigos não caberiam canções.

    Coloriu a indecência, pixelizada.

    O agudo vibrava de dentro da TV, a cantora de coxas nuas batucando na madeira, o violão aninhado em seu peito; sabia ser olhada, sabia ser entendida. Lira a ouvia enquanto amansava os rugidos de crescimento em seu ventre, era o quarto mês. A barriga anunciou, lá pelo quinto, a criança clandestina para a irmãzinha Ana, que testava sua habilidade em girar maçanetas. Os disfarces e seu dom pra invisibilidade não funcionariam. Do rapaz sobrou pouco mais que um retrato no quintal; ela carregaria, só, a filha daquela tarde. Olhou pra mãe enojada, a condescendência do pai doía na culpa. Só de imaginar, ela encolhia. Fraquejou, aprumou as penas. De lembrete, nem um par de meias debaixo da cama. Dessa vez não tinha como quebrar a tela, borrar a tintura, a travessura de Lira era vida crescente, engatinhava e vinha com fome. Fez-se grande pra abrigar Ananda em seu vento.
                     
    A figura velha e cansada padeceu, desaparecendo num infinito branco, seguindo o destino do trem. Parou de ser, tamanha era a ausência de tinta.

    A mulher do trem, por sorte ou por arte, nunca existiu. Só mesmo Lira, mãe passarinha, menina pintada e mulher n’água a transformar riscos de chuva em represa, papo furado em assovios elétricos contra a velha cisma humana de estabelecer quadrados. 


    ______________________________________

    Fernando Ananias, mato-grossense que faz das palavras brincadeira, tem um quê de Manoel de Barros e Rubem Fonseca, sinestesia e criatividade, personagens memoráveis e histórias surpreendentes. Promessa da literatura brasileira que tenho o orgulho de conhecer. Pedi que escrevesse algo sobre mulheres, uma encomenda para lembrar os velhos tempos de compartilhamento das letras e o resultado foi esse conto tão especial.

    quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

    "Do amor e outros demônios"


    "...então Zeus cortou ao meio as criaturas, para tornar-lhes mais humildes. Passaram eles a procurar a metade perdida na vã tentativa de ser completos novamente". O mito da alma gêmea, apresentado no livro "O Banquete" de Platão, conta como os seres humanos, que antes eram andróginos, foram separados em castigo e se tornaram um só, para despender a vida na busca um do outro. Essa explicação para o amor se modificou ao longo da história, encontrou no amor romântico um nicho fértil e até hoje permeia o imaginário emocional das pessoas. Afinal, quem não desejaria ter alguém para completar-se?

    O espiritismo endossa essa ideia, não de que teremos todos uma metade, mas que existem almas afins e que buscam evoluir juntas e para as quais separar-se a cada morte é o motivo para buscar-se na nova vida. Na tradição judaico-cristã Adão foi criado à imagem e semelhança de Deus e Eva a partir de sua costela, sendo assim, carne de sua carne, sangue de seu sangue, sendo estabelecido o matrimônio, a união eterna sob os olhos divinos. Há mais de 2 mil anos nossas histórias e crenças contam sobre os sentimentos que surgem e ensinam como devemos lidar com eles. E assim seguimos quase todos muito bem.

    E se não me bastar uma só pessoa? E se eu quiser duas? E se eu não quiser nenhuma? Logo a coercitividade social aplaca qualquer sinal de variação, é taxado de promiscuidade, bizarrice. Mas vivemos mudanças, ainda bem.

    Há vinte anos atrás a palavra "ficar" não fazia parte do vocabulário adolescente, eles namoravam, paqueravam, etc etc. Mas beijar alguém era sinônimo de comprometimento. Sei disso pelos relatos que escuto desde criança, talvez noutros lugares fosse diferente, provavelmente haviam outros comportamentos também, é claro. Mas em suma, os jovens tinham mais "relacionamentos sérios". 

    Hoje, ainda bem, praticam-se outras coisas. Numa só festa fica-se com mais de uma pessoa e não só em festas - que antropologicamente falando, podemos ver como um momento de inversão comportamental, numa festa é permitido fazer tudo o que a sociedade coloca à margem como postura condenável, vide álcool, sexo, dançar etc etc - mas também na vida cotidiana, nos permitimos ficar com várias pessoas simultaneamente, ou seja, manter laços afetivos. Entretanto ainda é tabu ter mais de um relacionamento.

    Porque ter mais de um relacionamento, declaradamente, mexe com o ego da nossa personalidade social, é o demônio da infidelidade. Ora, só existe infidelidade porque existe cobrança de que se seja fiel. E a primeira característica  que ligamos à infidelidade é promiscuidade, o cafajeste safado e a vagabunda sem vergonha, reduzimos tudo a sexo. Pior, reduzimos porque ainda consideramos sexo pecado, imoralidade e seria uma ofensa dizer que traição é só sobre isso.

    Ou seja, é uma bola de neve.

    Se você é hétero e monogâmico, cisgênero etc etc e encontrou ou costuma encontrar uma pessoa só que o faça feliz, parabéns. Ninguém quer que você mude seu jeito de existir. Só queremos que o nosso jeito também seja aceito e respeitado.

    O POLIAMOR

    O poliamor é não-monogâmico, é a prática, o desejo, a aceitação consensual e responsável de mais de um relacionamento ao mesmo tempo. Não existe traição, existe somente amor. Os questionamentos mais comuns sobre o "grau de normalidade" das pessoas poli são:

    ~ "Se você não tem certeza de quem ama, não é amor". - Não é uma questão de dúvida, é uma certeza de que se ama mais de um, não há indecisão, nem sacrifício.
    ~ "Mas como é possível amar mais de um?!" - Como você ama sua mãe, seu pai, seus irmãos, primos, amigos ao mesmo tempo?!
    ~ "O mundo tá perdido, o que as crianças vão pensar? Como elas vão crescer num mundo assim?" - há pouco mais de cem anos atrás as crianças eram educadas pra pensar que negros eram escravos naturais dos brancos, que mulheres eram servas naturais dos homens, há trinta anos ser gay era doença e tinha "tratamento", por isso, meu caro, as crianças vão aceitar, bem melhor que muito adulto por aí.
    ~ "É o fim do casamento, da família, da moral e dos bons costumes" - Ser mãe ou pai solteiro é completamente aceitável hoje, por que ter três pais não seria? A família é essa instituição formada por laços afetivos e sanguíneos, a paternidade e maternidade são fenômenos biológicos mas também sociais, vide adoção. Então, não faça escândalo que a humanidade não vai acabar por causa disso.

    Deixando  esses mitos reproduzidos pelo senso comum, temos uma questão mais séria, que é a legalização do casamento poli. Atualmente as pessoas podem unir-se a pessoas do mesmo sexo, mas não a mais de uma. Quem sabe daqui a algum tempo a família tenha mais esse tipo de configuração?

    O vídeo "Poliamor" traz algumas outras informações  de modo muito didático sobre a realidade das pessoas que vivem relacionamentos poli:


    E agora, retratos de relacionamentos que não correspondem ao padrão monogâmico, filmes interessantíssimos e que abordam o tema com delicadeza, paixão e sensibilidade, lidam com o amor da melhor forma possível: com amor.


    "Les Chanson D'Amour" (Canções de Amor), filme de 2007 do diretor Christophe Honoré. Um musical ma-ra-vi-lho-so, se tornou de longe o meu preferido! Apresenta o triângulo formado pelos atores Louis Garrel (<3), Clotilde Hesme e Ludivine Sagnier. Fotografia belíssimas, músicas de tirar o fôlego e um desenrolar da história apaixonante! Download aqui.




    "Os 3", filme brasileiro de 2011, dirigido por Nando Olival. O trio aqui é formado pelos atores Victor Mendels, Juliana Schalch e Gabriel Godoy. Conta a história de três pessoas que se conhecem numa festa e resolvem morar juntos. Nos quatro anos de faculdade muitas coisas acontecem, mas é só no momento de separar-se que eles percebem que amar não responde a nenhuma fórmula preestabelecida. Download aqui.

    Quem tiver mais indicações de filmes ou deseja falar sobre o poliamor, deixe  um comentário!

    ps: pretendemos postar mais sobre poliamor, trazer relatos e estudos mais aprofundados sobre o assunto ;)


    quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

    Pra chatear mais ainda

    Olá pessoal!

    O Chatas anda meio parado (eu me utilizando aqui de um eufemismo danando) por vários motivos. No fim das contas creio que essa pausa se fez necessária. Nós seis temos milhares de coisas para fazer e nem sempre damos conta de tudo, é preciso por vezes acalmar a alma e ir mais devagar. 
    Mas o Chatas de Atenas não acabou! Longe disso, em 2013 queremos continuar chateando muita gente!!! Falando num blablabla incorrigível o que parece estar sem jeito. Reclamando, denunciando e festejando o que há de bom e belo no mundo. 

    Para você, que acompanha o blog e sentiu saudade, pode ficar feliz. Estamos de volta e loucas por propostas, sugestões, opiniões. Que em 2013 o Chatas de Atenas cresça, intrigue, informe, ajude. Feliz ano novo, pessoas!! Sejamos felizes!


    domingo, 11 de novembro de 2012

    E agora, para onde vamos?

    Imagine você um grupo de mulheres a caminho - não, não sabemos para onde exatamente - todas num luto que mais parece tango, em movimentos sinistros e pés acariciando a poeira. Eis o começo de "E agora,  para onde vamos?", filme dirigido pela talentosa Nadine Labaki.

    Mais que uma história sendo contada o filme é um pedido de paz. Num pequeno vilarejo libanês convivem muçulmanos e cristãos, cercados por minas de guerras anteriores, longe da "civilização" eles conseguem partilhar da mesma comunidade sem muitos problemas. Os homens se reúnem no bar local para beber, as mulheres fazem juntas os pedidos de compras (que são feitas por dois garotos na cidade) e as crianças correm soltas nas vielas, sem dar muita importância se são de Jesus ou de Maomé. 

    Porém, há rumores de mais uma guerra civil no Líbano, nós contra eles, e o vilarejo, local da sagrada comunhão, torna-se cada vez mais dividido. Os homens, aqui apresentados de certa forma como incontroláveis, compram uma briga que não é sua e finda-se a paz. As mulheres, então, cansadas de perder maridos, filhos, irmãos e sobrinhos, compram uma briga que também não lhes pertence, mas que lhes fora jogada nos braços. Pois bem, resolvem elas e os representantes religiosos findar com a guerra.

    Há uma beleza na simplicidade que poucas 
    vezes é traduzida, mas Labaki soube cantar esta fábula atemporal justamente assim, de forma simples e bela. Há os momentos impagáveis que nos fazem rir, como quando as mulheres do vilarejo cozinham bolinhos com haxixe para drogar os senhores e assim, esconder suas armas; mas há também as tristezas mais profundas da perda, como a mãe que guarda para si a morte acidental do filho, para que não seja o estopim da inevitável guerra. 
    A seguir, o trailer:




    A questão é muito simples, para evitar a guerra, elas estão dispostas a qualquer coisa, contratam até dançarinas russas para "distrair" os homens da cidadela, passando por cima de qualquer receio moral ou religioso. Para essas mulheres pouco importa se a guerra é um "mal necessário", porque até agora, a elas só ficaram as perdas e faltas. As cenas mais engraçadas são justamente as desse estranhamento das senhoras muito recatadas e "protegidas" por vestidos e véus com as dançarinas muito loiras e bronzeadas e de pouca roupa. 


    Para uma mente como a minha, solo fértil para a literatura fantástica, alimentada por Macondos, Titas e Florentinos, e que não teme volver, "E agora, para onde vamos?" é natural e quase de casa, os dramas que envolvem morte e medo, amor e sacrifício fazem parte da maneira como leio o mundo, não só os livros e filmes. Indico com carinho os cem minutos dessa história que soa como uma canção de mãe, extremamente cálida e capaz de uma saudade excruciante.

    O título do filme só se compreende ao final, a chave está na morte, o desfecho é a pergunta. E numa breve análise concluo, para manter a vida, cruzamos limites. A nós mulheres sempre foi delegada a função de amar infinitamente como mães, filhas e esposas, eis a maior liberdade e prisão. Hoje talvez possamos escolher quem amar e como amar, mas ainda tenho dúvida do que é "natural" e do que é construção social. No fim me parece que somos mesmo produto e reprodutores de nosso tempo, todos muito preocupados em apenas viver.

    Aqui uma resenha breve sobre o filme, aqui o download.

    domingo, 14 de outubro de 2012

    Por que?

    Há alguns anos atrás escrevi um texto em meu blog pessoal que demonstrava todas as minhas dúvidas e crenças, equívocos e disparates sobre o feminismo. Eu não sabia o que era, por isso não me declarava como tal. Mas creiam, caros leitores, não titubeio: em meu corpo habita uma alma feminista

    "Ah, mas discutir polêmicas como aborto, cotas, racismo e política em geral é perda de tempo. Cada qual com sua opinião vai defender apenas o que acredita, vira uma guerra de inteligências". Eu já disse isso, e não me envergonho de assumir que estava errada, "volver siempre, olvidar jamais". E hoje, ao invés de criticar alguém ou algo, resolvi resgatar minhas antigas opiniões, comparar e quem sabe, levar você que lê a tentar mudar de ideia também.
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    Gênero é algo construído socialmente, digo isso porque estudando diversas sociedades e seus sistemas de organização vemos que há modos e modos de ser homem e mulher (ou qualquer outro gênero). Não é da "natureza humana" que a mulher seja "Como se fosse uma frutinha doce/ Que a gente guarda pro jantar./ Como se fosse uma viola nova, /Que a gente gosta de tocar", como bem cantou Nara Leão, sobre a figura da donzela. Sinto muito aos que acham que as meninas já nascem gostando de rosa e coisinhas fofinhas e os meninos, cheio de energia para jogar bola e comandar o mundo, não é bem assim. A questão é que somos ensinados a ser esse tipo de homem e esse tipo de mulher. 

    E por mais que hoje seja bem diferente do século passado, por exemplo, quando as mulheres eram privadas de direitos básicos do ser humano, necessários à uma democracia, como direito à propriedade, à herança, ao voto, à assumir cargos públicos, etc etc etc; ainda há um longo caminho pela frente.

    É nisso que o feminismo atua, nesse caminho para que independentemente de ser homem ou  mulher, a pessoa, como ser humano que é, tenha seus direitos assegurados (e deveres também, é claro). 

     "Já ouvi milhares de pessoas dizendo que é coisa de mulher “mal comida”, feia e que quer ser intelectual. Que é o equivalente do machismo, que só aprofunda a guerra entre os sexos, que não serve pra nada. Não sei exatamente o que penso, mas acho que tem seus prós e contras, não se pode jogar no lixo. Afinal, o movimento feminista teve muitas vitórias, conseguiu, ainda que não por completo, libertar em partes as mulheres, sexual e politicamente."

    Cristo! Como eu estava enganada! 1. Não sei da vida sexual de todas as pessoas feministas (não somos só mulheres, juro). 2. O equivalente do machismo é o femismo, dá pra perceber pela etimologia da palavra, e nem sei se isso existe, nós nunca estivemos no topo das paradas pra querer manter a ordem opressora vigente. Dizem que há esse feminismo radical que quer extinguir todos os homens da face da Terra (muahahaha) e que viria a ser o equivalente do machismo. Bom, já é uma prova de o machismo não é legal. E uma coisa bem óbvia, os homens ou as mulheres não são todos iguais, essas denominações não conotam o caráter de ninguém. 3. Não acredito hoje que existe uma guerra dos sexos (por mais que a novela das sete tenha esse nome...) O feminismo combate a prática machista e não os homens, tão tal que só o que temos são mulheres machistas! Como principais responsáveis pelo processo de socialização das crianças, são as próprias mulheres que reproduzem o discurso patriarcal, numa coisa meio maluca. Isso sim é alienação, atentar contra si mesmo sem saber (ou sabendo). 4. Agora eu sei o que penso, o movimento feminista teve suas vitórias e no momento, há quem diga que vivemos uma terceira onda feminista, com a Marcha das Vadias, que eu tenho orgulho imenso de fazer parte.

    E por o feminismo tratar geralmente de assuntos sobre a mulher, estudos de gênero são naturalmente compreendidos como estudos sobre mulheres, só que não. Oras, o feminismo nasceu lá no fim do século XIX, a tal modernidade se equilibrava na "democracia" e no "progresso". Papéis declaravam que todos os homens eram iguais, que todos eles tinham o direito essencial de possuir a própria vida. Baseadas nisso e de forma muito inteligente, nossas ancestrais protestaram pelo direito de voto, herança e propriedade. Na Inglaterra nasceu  o feminismo liberal. Com o desenvolvimento da vida urbana, a organização dos movimentos operários e Marx bradando que o proletariado se unisse, o marxismo foi ganhando força e surgiram novas análises da exploração. A burguesia --> proletário --> esposa do proletário. Seria então a mulher, através do trabalho doméstico, o cocô do cavalo do bandido, que possibilita a mais-valia do possuidor dos meios de produção (o patrão) sobre o que vende sua força de trabalho (o operário). Pois é, o feminismo marxista "descobriu" que realmente, a origem da desigualdade dos homens está na divisão do trabalho que a família institui (necessário, segundo Marx, para a produção e reprodução da sociedade), sendo a mulher a explorada pelo explorado.

    Na minha humilde opinião, o socialismo não vai libertar a mulher desta bendita exploração, nem o capitalismo; mas este último possibilita o que fazemos, reclamar, protestar e tentar reverter a ordem. Conseguimos ter o mesmo direito à educação, o mesmo dever de votar. Podemos seguir as mais diversas carreiras (ainda que enfrentando vários obstáculos) e já ocupamos cargos de poder na política e na economia, por exemplo. Fizemos muita coisa.

    Em meu primeiro post no Chatas eu falei sobre o disparate de as mulheres serem mais de 50% da população mundial e serem consideradas "minoria sociológica", já que nossa representatividade não corresponde ao número real; e hoje eu falo novamente, acho errado. Na minha visão, o feminismo tenta ser o remédio disso. E se perguntam "por que, por que ser justo feminista?" Eu respondo numa prosa estranha: quero ser a cura para as meninas que não veem o futuro, para as moças que tem as asas podadas e os corpos mastigados. Eu quero ser o unguento que sara as mães dilaceradas e as crianças que não sabem, fronteiras não existem. Ah, eu quero espalhar a esperança e as possibilidades, eu quero ser o que somos, sem ninguém rasgando a pele. Então, me deixem ser nós, me abandonem feminista que sou e permanecerei feliz.




    domingo, 23 de setembro de 2012

    Sobre mães, partos e barrigas

    Então você nasce e te dão bonecas, tem sempre uma que enjoa, vomita e tem vontade de comer algo estrambólico. Em pouco tempo aparece uma barriga feita de pano ou uma bolinha qualquer, daí tem o dia do parto e a brincadeira fica engraçada, você escolhe o nome, se são gêmeos, trigêmeos, um time de futebol! Sua boneca sai toda exibida, levando os filhinhos pra escola, ela envelhece e você continua a brincar no dia seguinte com os que nasceram do ventre de pano. 

    Eis que chega o tempo em que você já não brinca mais com as bonecas e corre o risco de viver o que encenava, você pode engravidar. E analisando, o papel da mulher na sociedade está altamente ligado ao seu corpo, os ritos que demarcam as mudanças também. Nascemos menina e então vem o sangue se esvair na menstruação, aprendemos o que é cólica e que não se pode sentar em calçadas quentes. Viramos moça e vem o sangue se esvair com a virgindade, aprendemos que é preciso “dar-se respeito”, ou seja, não se dar para quem quisermos, caso contrário, a coisa fica bem feia. A partir daí dizem que somos mulheres, mas ainda há mais sangue para se esvair, no parto de uma criança que brincou de roda em nossos ventres. Só quando o sangue para, quando a menopausa nos alcança, parece que podemos descansar nossas veias e pensar noutras coisas. Mas aí talvez já seja bem tarde. 

    Por isso a maternidade é opção. E, num planeta no qual a espécie predominante tem cerca de sete bilhões de indivíduos com uma expectativa de vida que só cresce e capacidade de controlar grandes epidemias, dar continuidade à essa população não é prioridade. Na verdade, temos que diminuir os índices de natalidade, isso sim. Então, se você acha que uma mulher que não quer filhos é uma herege que blasfema a cada respiração, se ligue, pessoa. 

    A maternidade é opção, repito, mas é bem sabido que as que escolhem por ela têm uma responsabilidade vitalícia. Toda mulher é mãe. Há tempos de ser mãe da boneca, mãe do irmãzinho, mãe do marido e dos próprios filhos. Há mulheres que são mães de uma causa, e a defendem como a uma cria. Ela é mãe dos oprimidos, mãe dos feridos, mãe dos que não têm mãe. A maternidade é um movimento com uma única ideologia: o amor.

    E dessas tantas mães, as que decidem por uma maternindade biológica, vivem uma metamorfose, como se ela própria entrasse em seu útero, o casulo, junto com seu filho, para no romper da bolsa saírem ambos, cada qual com um mundo novo a descobrir.

    Desenho japonês de 1930 que
    apresenta técnicas de massagem para
    facilitar o parto
    Há ainda quem queira marcar esse rompimento com o laço da luta, de quem sofreu para poder embalar a felicidade nos braços. As mulheres que optam e conseguem seguir com o parto normal- há que se ressaltar que algumas precisam fazer cesariana por questões de saúde- além de ter uma recuperação mais rápida, relatam a satisfação de terem guiado seus filhos até aqui de forma natural, como é feito há séculos. O parto faz parte do ciclo reprodutivo da mulher, e a cirurgia que o permite ser indolor é algo muito recente, além de muito invasivo para a mãe.

    Claro que é devido o reconhecimento das técnicas de obstetrícia. Prova disso é a considerável redução no índice de mulheres que morrem por conta de complicações no parto, muito comum nos séculos passados. Mas essas técnicas podem sim fugir da intervenção cirúrgica e buscar um parto natural e humanizado. Em países de alto índice de desenvolvimento humano, como Holanda e Suécia os partos naturais são maioria, e muitas vezes feitos em casa.

    Ilustração de parturiente e parteira Kiowa
    Já há grupos também no Brasil que acompanham a mulher no pré e pós parto natural em casa, auxiliando no alívio da dor e nos primeiros cuidados, como o Samaúma. Embora a cesárea, seja mais rápida e com "menos dor", e tenha se tornado mais comum no nosso país, ainda dá pra tornar mais humanizado o primeiro momento em que berramos ao mundo que assim o somos: humanos. Dados do Ministério da Saúde mostram que "em 2010, o Brasil registrou mais cesarianas do que partos normais. Enquanto em 2009 o País alcançava uma proporção de 50% de partos cesáreos, em 2010, a taxa subiu para 52%. A Organização Mundial da Saúde recomenda que essa taxa fique em torno de 15%. Na rede privada, o índice de partos cesáreos chega a 82% e na rede pública, 37%". ¹

    E esse crescimento de cesáreas significa algo. O parto, antes de qualquer coisa, é o desfecho da gravidez, por que colocar-se não como protagonista dele, mas sim como figura passiva, que para não sentir dor, não sentirá nada? O debate normal x cesárea tem se mostrado frutífero e parece despertar interesse do governo, que em 2011 criou a Rede Cegonha, "uma estratégia do Ministério da Saúde, operacionalizada pelo SUS, fundamentada nos princípios da humanização e assistência". Projeto muito interessante, que se colocado em prática, modificaria a realidade da maternidade no Brasil. 

    O que fica de lição é a possibilidade de escolha que a mulher deve ter, claro que um parto cesáreo em casos de complicações médicas não deve ser questionado, mas será que todos os partos cirúrgicos que acontecem em nosso país são necessários?

    Para os que se encantam com a beleza de parir e para os que ainda acham algo "nojento", um vídeo emocionante:


    O site Amigas do Parto esclarece muita coisa sobre o milagre de parir, como por exemplo, os tipos de parto e a história deles, além de dados científicos sobre, as recomendações da Organização Mundial de Saúde, entre outras cositas más. Indico.

    E para finalizar, um poema de Elisa Lucinda: 

    "Filho...igualzinho à minha poesia
    Você nunca foi meu órgão

    Capaz de prosseguir com essa invenção chamada humanidade
    Você é a barbaridade de ter feito a minha barriga crescer
    Meu corpo zunir, abrir, escancarar pra você sair
    De onde eu nunca pus sequer os pés, as mãos
    Da casa em que vivo e habito sem nunca ter entrado
    E haverá sempre um leite materno.


    Olhou as minhas entranhas enquanto virava ser humano
    Quieto dentro de mim como as palavras antes de serem poesia
    Mas fui apenas uma pensão, uma besteira
    Ou um hotel cinco estrelas
    Ou um amniótico colchão

    Hoje saído dessa embalagem, me olhas como miragem

    De parecer tão próprio, tão seu...
    Deixar de ser óvulo, indefinição, projeto, embrião...

    Escorrendo pelo seu terno
    Como mirra, benção, distração
    Como birra, alimento, maldição
    Maior que em mim, melhor que mim.
    Está pronto e feito como o meu melhor poema..."

    Referências:

    OBS: O texto foi produzido em conjunto, por Ananda Marques e Bianca Sampaio, duas criaturas que desejam tornar-se o mundo e oblongamente acolher a vida dentro de si. Ananda quer duas ou três crianças, o importante é que tenham nomes de quatro letras e Bianca quer três, pra caber todo mundo num carro só.